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A mostrar mensagens de 2016
Olha, e se gostar de ti? Qual é o mal? Gosto de ti. Do teu cabelo rebelde e felino, dos teus dedos desalinhados do destino, que são receosos mas que acalmam ao tocar sensivelmente. Faz-te leoa, olha-te ao espelho sem procurares defeitos. Olha no fundo daquela que te olha de volta e diz: "Eu amo-te." É o teu corpo; único e recipiente de todas as tuas vontades, paixões, mágoas, sorrisos e tristezas. Não te fiques pela metade, tens toda a liberdade para seres com certeza. Confia mesmo sem saberes porquê, apenas porque és tu e bastante, confiante e radiante, ingénua mas autêntica, de ternura envergonhada mas disposta a amar e ser amada. Então relaxa e abraça-te e veste-te porque gostas da roupa e não por ser a melhor capa. Sorri sem pores a mão à frente. Olha nos olhos de quem te tente. Deixa-te ser intrometida atrevidamente, deixa-te errar e enganares-te estupidamente porque por mais que tentes fugir de ti, serás sempre tu no fim ou no começo. O medo pesa, a vergonha diminu...

Dois

Há tempo que não paro  para escrever mas é que agora sinto e percebo um pouco. Percebo que não tenho percebido nada, que não tenho estado completamente presente nos momentos - continua a ser o meu maior desafio. Mais ainda porque perco a noção e estou constantemente desfocada que nem consigo depositar-me. O pouco que consigo processar é que o tempo é muito fugaz.  Admito que fugi e tento ainda fugir de tudo o que passei no meu país, de mim, de todas as minhas memórias e fases que não quero ver refletidas no que sou mas ainda me olho ao espelho e vejo a dor encarcerada, aquela que tentei pôr debaixo do tapete. Não o fiz de propósito mas a certa altura estava curada, sentia-me bem, a minha pele estava radiante e os meus olhos sorriam. Mas tornei-me adulta, fui para a faculdade e... sei lá, caiu sobre mim um manto de névoa e uma carga de inseguranças que abalaram todo o progresso. Desde aí, estou aqui, assim. Fugi mas também precisava de um sítio novo para começar algo, não sei ...

Pessoas que se esquecem de pessoas que se lembram

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Pessoas que nunca foram esquecidas não sabem lembrar-se dos outros. Sabem que os outros estão lá à espera, mas fazem para que se esqueçam. Enterram-se na rotina e na cobardia. Esquecem-se que a vida não é uma fita métrica pré-definida, é antes um rio que não se sabe quando vai desaguar e estagnar. É tão cruel que os que mais ignoram, são com quem mais nos preocupamos. Nós. Os que pensam nos outros; no que eles pensam, no que sentem. Eles. Que nos atacam, que nos desprezam. Nós. Que os chamamos, que os ouvimos, que os perdoamos. Nós. Que esperamos. Eles. Que nos esquecem. Estou no meio do meu campo ao mesmo tempo que assisto a isto como uma transmissão indirecta até onde estou. Posso afirmar com confiança que sei o desfecho do jogo a que assisto. Um joga ao ataque, consecutivamente faz faltas que ninguém marca, o outro dos nossos fica lesionado ao ponto de o jogo parar. Ele arrepende-se, pede desculpa, mas o outro ficou incapacitado de jogar. O jogo acaba. Eram apenas dois em cam...
Ouves as palavras como facas, acumulas e calas. Riem-se das tuas falas, dos teus tiques e manias, das tuas ideias e crenças, de ti. As lágrimas caiem em silêncio e apenas no escuro. Não há alguém ao teu lado que te pergunte como estás querendo saber a resposta a sério. Alcanças as pessoas, elas querem lá saber. Quando tentam saber de ti, desistem. É como se andasses num patamar diferente de todos os outros, sempre um passo a mais ou a menos. Falam-te como fosses idiota. Uma idiota coberta de nevoeiro. Uma alma qualquer que pensa demasiado sobre tudo, que prevê as vidas dos outros, que sabe o que sentem, que sente por eles. Uma idiota que idealiza, que deixou de sonhar ou se esqueceu que sonhos lhe pertencem. Eu, idiota? Uma idiota que acham que tem problemas, depois riem. Riem sem saber que as minhas falhas são ténues reflexos de um todo bem mais problemático. Oiço demais, sei demais e pesa-me demais porque não ouvem de volta, nem tentam fingir que querem saber. É um caminho demasiado ...

O meu bem

Não enviem mantimentos, não é um refúgio que procuro. Encontrei um lugar que encerrou as estradas velhas em vez de me fa zer  evitá-las . Um sítio para ser, não para me esconder, onde me chamam vozes e vontades, sítios e cidades em v ez de ecos. Nem tenho tempo de pensar se alguém sente saudades de mim, eu não. Não penso para não duvidar que devo continuar presente. Aqui é que devo estar. Já fui mais feliz aqui em menos de um mês do que durante mais de um ano inteiro em Portugal. O frio adoçou-me os sentidos. Não sinto que tenha mudado, sou eu na mesma forma, mas não da mesma maneira. Esqueço-me que tenho quem me espere mas não me pressionam um regresso. Percebem que isto era tanto para mim como para eles. Eu já não tinha que pertencer ali, nem a ninguém. As saudades chegam-me em forma de receio da despedida porque encontrei uma casa aconchegante, inconstantemente feliz, autenticamente desafiante. Mas quer o meu bem e eu quero estar aqui.

À miúda mais rabugenta que eu nunca vi

Vai lá agora, chateia-te mais, fala ainda mais alto, satura tanto as teimas que só te restem sussurros doces e lágrimas ternas Pergunto-me se algum dia te vi realmente, se alguma das incontáveis vezes que senti, acertei no que sou, ou no que devia ser; Teimosa, chata, insegura... Que quando chora cria muralhas mas que quando ri quebra muros Podes culpar o mundo, não lhe deves nada, ele quer lá saber de ti Se há coisa pelo que tens de te culpar, é por teres chegado aqui, Magra, pálida, vesga, gorda, estranha, desfeita, de fora, A culpa é toda tua quem é que te mandou chegares até aqui? Tu. 3.09.2016
Não sei desde quando se desvaneceu o impulso de despejar palavras. Talvez tenha ficado submersa no mundo e ficado surda da minha essência. Pelo bem ou quando mal, escrever tem sido algo que surge naturalmente, sem intenção, apenas sentido. Agora... não a encontro. A vontade. Não é que me falte algo sobre que escrever mas sim a inspiração. Talvez precise de alguém que me inspire. Mas mais certamente preciso de ficar inspirada por aquilo que sou e com aquilo que me faz feliz. Que por acaso, ainda não sei bem o que é. Costumava ser escrever. Tenho-me perdido demasiado no caos e no deslumbramento fugaz. Quando decidi ir embora, quando fui, deixei muito para trás que nunca mais vou voltar a ter. Escrever não era algo que queria ter deixado. Não escolhi deixar. Se há coisa que quero trazer comigo para o resto da vida são as palavras que ainda caiem honestas. Quero ter pelo menos esta voz.

Vou

Sabes onde não me sinto? Aqui. E sabes o que vou fazer? Vou embora. Mesmo. Não estou em mim ou não caibo cá dentro com toda a bagagem que insisto em carregar; o passado, os remorsos, as mágoas, as palavras, as memórias... o meu impasse é ter de deixar grande parte disso para trás, a minha proteção. Que aliás, protege-me do mundo exterior e do alcance autêntico dos outros mas faz ricochete das minhas inseguranças e pesadelos. Agora não tenho hipótese. Estou nervosa. As pessoas desejam-me sorte, desejam-me boa viagem, abraçam-me, sorriem de uma forma brilhante. E eu estou nervosa e ansiosa. Penso nos que não se despediram de mim. Penso nos que não sabem que vou embora, naqueles que não vão sentir a minha falta. E penso naqueles que me vão fazer chorar. Ainda estou aqui mas nunca estive realmente. Por isso já não devia ter medo, acho que não tenho realmente. Apenas receio que me abstraia mais do que já estou. Preciso de um foco e talvez este seja aquele que eu preciso de conhecer. Al...

Lancei um livro?

Atirei-o aí para o meio do caos virtual. Por mais que me segure ao passado enquanto mau hábito, é algo que quero largar e estou cada vez mais perto de não ter hipótese de escolha. Este livro não foi escrito nem de seguida, nem de propósito. Surgiu num âmbito académico porque tive a liberdade de o fazer. Então peguei em textos antigos, reescrevi, escrevi e entreguei-o para avalição. Aquilo que não conto a ninguém; entregue a um professor, num âmbito formal. Agora que o leio, são para aí umas quarenta páginas de lamentações, falta de auto-estima e festa da peninha. Tem uma sequência básica, responde a perguntas que ninguém fez, apenas diz e diz sobre coisas que me fizeram quem sou e como sou agora. Tenho sentimentos que se disputam em relação a este livro, azeda-me o paladar e ao mesmo tempo quero abraçá-lo, despedir-me. Tenho algures um eco em mim que quis contar tudo aquilo a alguém, ou a ninguém. Não sei porquê tinha um sentimento de dívida com algo ou alguém, como se tivesse m...
Hoje pensei nisto com mais calma e decidi partilhá-lo porque pode chegar a alguém a quem faça sentido. Porque foi algo em que falhei e gradualmente estou a corrigir; Ignorar o que se gosta de fazer e como o que nos rodeia pode esconder ou enaltecer isso. Desde que tive uma máquina fotográfica comigo quis capturar algo que ficasse comigo para sempre e fotografava tudo o que queria, sem pensar no resultado ou na importância que podia vir a ter, apenas porque gostava. Só assim consegui fazer da nostalgia uma qualidade. Até uma altura em que deixei de fotografar, outras confusões sobrepuseram-se, perdi-me, e esqueci-me. Há quem torne todos os gostos em sonhos, o que não é o meu caso, então ao não ter nada à minha volta que me impulsionasse para isso, deixei. Foi preciso anos mais tarde, estar num âmbito que me desse a hipótese de o fazer, mas não foi um reencontro imediato, foi preciso deixar de lado o medo e as comparações e deixar-me gostar e fazê-lo como queria. Tive dois âmbitos em que...

Transição

Estou num período de transição, de tratar de burocracias e fazer malas. Está um silêncio desconcertante aliado a uma falta de acontecimentos que me atordoa. Já falta pouco. Pouco para tanto. Despedi-me da maioria dos que me querem bem de uma forma tão simples e bonita. Despedi-me do meu lugar de infância. Vi sorrisos tão recheados de genuinidade, palavras cheias de coragem, recebi abraços já cheios de saudade. Tive pessoas apenas conhecidas a desejarem-me boa sorte, - daquela sincera, e olhos preenchidos de brilho. É pena que o sinta poucas vezes, mas por isso valorizo-o mais. Percebi de vez que a minha casa faz-me menos do que sou, é um mero ponto de passagem. A minha casa é onde sou melhor. Já encontrei várias, espero conhecer mais uma. Sou um pouco mais cada vez que saio daqui. De uma forma não amarga digo, que no dia que esta casa já não seja uma passagem, é porque estarei dona de mim; das minhas vontades, das minhas qualidades, do meu bem-estar. Vejo que há pessoas de bem algur...
Desta vez sem ofensas. Vou embora daqui a uns tempos. Depois de já ter ido a uma nova praia, depois de ter ido a concertos, depois de acabar um trabalho, depois de fazer duas décadas, depois de ir ao Alentejo, depois de nadar no rio Sado. Depois disso vou embora. E que me vai restar? Saudades e quero encher este verão de momentos recheados de boa energia, boa companhia, boa comida, boa saúde. Sair outra vez de casa mas sem antes derramar ao abraçar os meus bichinhos, o meu Osí, o meu Xuma, a Zuca. Se desatar a chorar pelo menos desato a fugir. Quero ter saudades mas não as suficientes que me façam querer voltar. Este tempo é meu e é para nutrir-me até literalmente. Está mais que no ano (sim porque já passaram vários) de ouvir o que diz a ciência do meu corpo, ela bem grita mas eu aprendi a não ouvir bem. Está no momento de descansar, de acordar a sorrir, de equilibrar a saúde, abusar dos risos, dos abraços, dos beijos escondidos. Está na hora de ser vida, não de voltar a ser o que era...

Sobre não ter urgência de escrever

Esta é a minha primeira vez. A escrever sobre não escrever ou sobre não ter vontade de escrever. Passaram-se duas semanas desde que acabei as aulas. Duas semanas? Parece que passou um mês, estou tão exausta, mais cansada do que estive durante as aulas ou até durante a semana mais stressante de trabalhos. Há tanto tempo que não me surge a urgência de despejar letras. Este texto provavelmente vai parecer robótico ou esquemático, como se de uma lista de compras se tratasse. Vamos lá rever o que se passou nestas duas semanas para me roubar a possibilidade de expirar de alívio por estar de férias. Pois estou mas não bem. Voltei para Setúbal e no dia a seguir soube que a minha avó tinha sofrido um problema de saúde e caído e estava há dias sem ir ao hospital. Estava completamente desorientada, assustada, desamparada, sem a clareza e perspicácia que a tanto caracterizava. Algo não estava bem e confirmou-se. Depois de passar um dia inteiro no hospital, o que desconfiava ser, confirmou-se e f...
Precisava que o tempo me pertencesse. O meu. O meu... Não o sol nem as nuvens mas o meu respirar, a minha comida, a minha cama, o meu riso, as minhas lágrimas, o meu amor. Isso é meu mas não está comigo. E devia. É que preciso mesmo do meu riso e de chorar. Preciso mesmo de abraçar alguém e chorar, seja lá quem for. Alguém que não me roube pouco do tempo que me resta. Que me deixe chorar sem pressas. Que me faça rir sem falsas promessas. Preciso da minha vida. De mim em criança aos pulos e inquieta para correr meio mundo. Preciso da miúda de volta, daquela que analisava tudo à exaustão e mesmo assim agia sobre impulso, que se atirava aos abismos e se desmontava a rir com gengivas à mostra. Volta aqui, aqui para dentro. Volta para casa por favor. Por favor.
Gosto de fotografar pessoas de quem gosto. Gosto de lhes captar a essência boa. Ainda não consigo controlar totalmente, não capto exatamente como planeado. Às vezes as fotografias saem bem, não sei porquê. Saem melhor quando tenho calma ao tirá-las, quando estou bem naquele momento. A fotografia é como a condução. Ambas projetam a personalidade de cada um. Uma pessoa insegura não terá uma condução confiante e controlada. Eu não tenho. Tal como não capto controladamente e com à vontade. Mas enquanto que a conduzir essas qualidades podem levar à destruição, na fotografia podem acentuar sentimentos. Quer dizer, as duas situações causam sentimentos, mas às vezes uma fotografia dramática é bonita, e um acidente de carro nunca o é. Sei que ainda fotografo demasiado como são as coisas. A escrever não o faço. Mas a captar... talvez esteja em busca da autenticidade em cada um. Não a total, ninguém tem posse de toda. Mas a íntima, a pura essência. Ou a puta da essência, que não é puta nenhuma,...
Quero ir embora. Afogar as mágoas e arrependimentos no rio, e viver só na terra. Com os meus pés descalços colados ao asfalto, senti-lo cravar-me de calos e a rasgar-me a sola enquanto inspiro o gelo e desperto para o que vejo. Quero ver o mundo na altura em que estou, e perder o mudo que se esconde em mim. Esquecer quem me esqueceu. As minhas mãos estão vazias de afeto, os meus olhos já nem de lágrimas transbordam, a minha boca já nem tem programação de fala. Quero escolher e decidir ao saber que quero. Não quero vingar-me. Ah. Claro que quero. Quero mostrar-lhes que sou capaz e que sou melhor pessoa do que alguma vez foram para mim. Quero que pensem, porra fui um filho da puta e devia mesmo pedir desculpa. Nunca me pediram desculpa. Especialmente aqueles que me magoaram de uma tal maneira que me esculpiram os defeitos. Tenho de ser eu a perdoá-los não é? Para aliviar os meus tormentos. Querem que confie, que me dê a conhecer... Depois de tudo? Depois das inúmeras vezes que me usar...

No fim da lua

- O que é que estás aqui a fazer? Pensava que já te tinhas esquecido... - À noite lembro-me. - E de dia? - De dia não brilhas. - Mas estou lá. - Mas não reparo, nem me lembro de olhar. - Pois... eles também não.

Não vos esqueço

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Nem que o mar se rompa nem que as placas façam estrondos nem que hoje volte a ser ontem nem que a luz se redima a estrela nem que a casa perca a tinta e fique apenas cinzenta Não vos esqueço nem que destruam o banco de cimento em que celebrávamos os anos dos nossos nem que não haja retorno ao dourado do monte nem que cortem todas as árvores e videiras nem que os pássaros comam todos os figos e fiquem apenas os pombos Têm a minha vida na vossa história e tenho-vos para sempre na história da minha vida Vou lembrar-me de quantas vezes o avô contou a mesma anedota e do saco que trazia sempre, ficava à porta, e para lá da porta tanto guardado só nosso O que vou fazer quando tudo o que traziam e cultivavam deixar de ser? quando não descascarem mais fruta e estiverem sempre prontos a dizer sim? Sempre lá... Vou continuar a ser eu, apenas e só com as memórias, com um terreno solitário mas tão carregado de histórias Um monte de nada depois de tantas vidas e hora...
Estamos a falar de dias de onde vamos estar os dois juntos parados ao luar Tenho-te às 3 da madrugada na caixa de entrada e tu o meu nome em décimo terceiro no C do teus contactos Queres o meu corpo e nada do que sou, sabes que sou de longe e tantas vezes por perto em que não sabes que estou À tarde ao pôr do sol o céu despido e nós entrelaçados com frio, inimigos, sem saber a quem estamos jurados Vais para longe de onde és e eu fujo de quem sou não te dou lugar num paraíso que imagino a dois Não estás na lista porque para estreia já bastou um dia ansiar por alguém com o teu nome e apareceres tu
Miúda, sem pressas. deixa-te estar e aproveita. Porque um dia acordas a anos de distância da inocência que ainda tens. A vida trata de rasgar esse véu de que tudo e todos são bonzinhos, mas não, nem todos. Mas nem há só maldade, tu é que ainda não experimentaste a bondade. Agora levantas a voz e pensam que é feitio amargo, mas é a voz que não saiu quando te atacaram. Gritas em tua defesa. Deixa que eu me encarrego de limar arestas, e não deixo desvanecer a tua prenuncia. Miúda. Olho para ti e eras tão estrela, tão tu sem saberes o quê. Insultavam-te e riam-se de ti mas, mesmo no meio do caos, encontravas uma alegria tão à tua maneira e continuavas tu. Gosto tanto de ti e tive pena de não gostar quando estive contigo. Tantos sorrisos que devias ter sorrido. Por ti. Por seres apesar de tudo. Gostava de te poder rever, de poder voltar a estar contigo, nem que fosse para te dar um abraço. Sei que não te disseram na altura, digo-te agora, tens tanto valor. Pensas que não marcaste o mundo? D...
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Deixa-me que te diga. O quanto os outros te magoam não é pretexto para vingares a tua mágoa no próximo. O melhor que podes fazer à tua dor é aprender com ela a ter compaixão, o que te levará a agir para que os outros não sofram o mesmo. Ultimamente, uma boa pessoa não é a que não faz nada de errado, mas quem reconhece quando erra e, instintivamente, ajuda porque quer. O pior que passas, será a melhor aprendizagem para ti e o melhor dos exemplos para quem possas ajudar. Que o mal que te fazem, não alimente o teu, mas que revolte em ti o bem.

Há tanto silêncio cá dentro que deixámos de ouvir

Guardamos silêncios, como quem guarda relíquias. Silêncios gritantes que nos rasgam cá dentro, ofuscam a sanidade e fazem de nós lunáticos. Não foram despejados a quem deviam, e essas palavras não servem a mais ninguém, ou são muito justas ou muito largas. Guardamos os silêncios dos outros, e há tanto silêncio cá dentro que deixámos de ouvir a profundidade das palavras, de quem somos, deixamos de nos ouvir. Ninguém cá entra, há demasiado ruído, o ranger da ausência a roçar na solidão, como concretas paredes que se atingem, ambas prestes a desmoronar.
E mesmo que dure o tempo inteiro, pelos meios que seja, será ténue, pois por mim não sou inteira, nem tenho relíquias nas algibeiras para expôr nos primeiros domingos do mês em que há feira. Não sou inteira, nem intacta. Inconcreta, discreta, esperta a sós, sonâmbula nos meios. E sem meio na parte em que sou.

O apartamento

Aluguei um pequeno apartamento, está empoeirado mas o sol atravessa os vidros das janelas e escorre pelo chão da sala e do quarto até ao corredor. O quarto tem vista para o mar, Ouve-se o vizinho do terceiro andar a tocar piano nas terças à tarde, podemos dançar ao som das teclas e o rés do chão está desabitado e tem um quintal abandonado onde podemos fazer pré festas às sextas à noite depois do trabalho que se tornam na festa toda depois de já estarmos todos ganzados Ah, é num quarto andar, não tem elevador, mas tem escadas que dão para o telhado, dá para fingir que é um terraço, dá para nos encostarmos e ver o sol esconder-se atrás da última onda E é um bocado, muito, frio, mas somos dois numa cama, com ou sem pijama, tu fazes de cobertor e eu de manta, e nesta pequena casa, cabemos os dois, com estes rasteiros rasgos brilhantes, atiçamos-nos e fazemos calor.
A par somos íntimos. Separados somos estáticos.
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E tudo o que somos, irá evaporar-se por fim. A sonolência que verte sobre a loucura e a enclausura com um manto de cinza. Seremos para sempre réstias de ontens que se esqueceram de amanhecer.

Reino luso

Num reino de mendigos e padres, de tediosos e passageiros, de rotinas feitas e inquietos sonhadores, de cães que roubam para enriquecer, e de cães abandonados ao esquecer, de mães que não expiram para suster o estatuto de faz-tudo; Mãe acorda, cozinha, limpa, educa, esconde, chora, mãe não se atrasa, mão limpa lágrimas, mãe lava roupa, passa a roupa, mãe lavada em lágrimas. País de filhos de pais, pais de filhos prodígios, país de narcos, de roubos, de filhos esquecidos, de filhos roubados, de pais sem filhos. Rei de normas auto prediletas, sujeitas ao privilégio de quem as decreta, rei de bolsos cheios, de boca falaciosas diabéticas Terra de putas e poetas promíscuos, os rascunhos e as fodas, pelo menos são consentidos.
Não te disse, o que queria mesmo era sentir o toque do que sentes.

TOQUE

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A sensibilidade, a vulnerabilidade de um toque. O quanto e o que expressa um gesto. Foi com algumas dessas ideias que criei este projeto. Não é uma fotografia, e não são apenas textos, não é algo que se define num só contexto. É uma história que se conta por imagens, quem a vê, lê-a à sua maneira de sentir. Idealizei, projectei, fotografei e escrevi, depois tornei-o num livro, que contivesse tudo o que queria transmitir. É um simples orgulho, mas é completamente sentido. Aqui está, podem ver e ler. TOQUE . As mãos que te confortam são as mesmas que te sufocam. Mãos que fazem e desfazem, que se cravam em sangue, que limpam lágrimas. Essa raiva que arde sem se deixar transparecer, que arranha, que sufoca, que amarra, que aperta, que atinge, que empurra, que demora. Que por fim, se estende, se rende, se acomoda, se conforta, finalmente, numa pele que se molda.