Quero ir embora. Afogar as mágoas e arrependimentos no rio, e viver só na terra. Com os meus pés descalços colados ao asfalto, senti-lo cravar-me de calos e a rasgar-me a sola enquanto inspiro o gelo e desperto para o que vejo.
Quero ver o mundo na altura em que estou, e perder o mudo que se esconde em mim.
Esquecer quem me esqueceu.
As minhas mãos estão vazias de afeto, os meus olhos já nem de lágrimas transbordam, a minha boca já nem tem programação de fala. Quero escolher e decidir ao saber que quero. Não quero vingar-me. Ah. Claro que quero. Quero mostrar-lhes que sou capaz e que sou melhor pessoa do que alguma vez foram para mim. Quero que pensem, porra fui um filho da puta e devia mesmo pedir desculpa. Nunca me pediram desculpa. Especialmente aqueles que me magoaram de uma tal maneira que me esculpiram os defeitos. Tenho de ser eu a perdoá-los não é? Para aliviar os meus tormentos. Querem que confie, que me dê a conhecer... Depois de tudo? Depois das inúmeras vezes que me usaram e descartaram? Como é que posso dar-me aos outros, se ao mínimo vislumbre de humanidade da minha parte, excluem-me. Eu não sou um inseto do mato. Ou sou? Sou? Está bem. Vejo que estão bem, ainda bem. Ainda bem que conseguem estar bem sem culpa de terem tratado mal alguém. Qualquer dia liguem-me para me ensinarem como se faz para não sentir isso. É que o resto já aprendi. Já não sinto alegria, nem vontade. Só me falta mesmo desaprender a compaixão, a preocupação.
Sei que pareço uma arrogante, talvez seja por vezes, mas é mesmo invisível o quanto investi em conhecer e relacionar-me com as pessoas? Deve ser, deve...
Parece-me que só vêem a minha autenticidade, o que tentei sempre transmitir, quando já é tarde. Só quando já morreram as brasas.
- Eras isto? Afinal era isso!
Mas ISSO, foi o que estive tanto tempo a tentar provar. Só agora é que vêem isso?
Ok, ok... vou acalmar. A vingança que eu quero, é uma melhor que vingança. É contentar-me no todo que sou, ser eu sozinha e ir onde quero, fazer coisas que me fazem contente, e entretanto, não me lembrar de tudo isso que ainda me lembro e centrifuga na minha cabeça. Já aconteceu, é possível.
Mas olhem. Não me digam nada quando chegar essa altura, ok? Continuem a postura de filhos da puta que mantiveram até hoje, para eu não ir feita santa compaixão responder.
Algumas coisas sei, que são passado. Ainda estão muito presentes, mas sei exatamente quem e o que só pertence ao passado. Posso não ter arrumado bem a tralha, não arrumei quase nenhuma, mas sei que é só lá que cabe.

Só queria despejar os trapos em algum lado. Deixem-se estar, não se levantem. Ah, as cadeiras estão vazias. Apagam-se as luzes. Já acabou a cena? Hm ok, vou embora então. Cá entre o palco e o chão deste espaço, digo que gostei mesmo das pessoas que me magoaram. Raio de mim, miúda ingénua que não quer ser adulta. Vou fechar as cortinas. Desço as escadas, poiso o guião na primeira cadeira. Olho uma última vez para o pavilhão. A tarde quente poisa nas tábuas, e aqui já não chega o calor. Vou embora agora.
Posso?
Vou.

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