Foi sem querer
Irei um dia morrer a dizer que está tudo bem. Não finjo de propósito, é inato. Assim que atravesso a porta para a realidade, estou em modo automático. Sou minimamente eu, o suficiente para não transparecerem as feridas, os dilúvios. Sozinha, o peso do mundo cai-me nos ombros, escorre-me piano abaixo e desalinha-me as teclas. Desafinada não canto. Sinto que carrego uma dor mórbida, que nem um sol de esplendor consegue ofuscar. Não sei de onde vem tanta dor, tanta mágoa, tanto ressentimento. Corrói-me, destrói-me lentamente de uma forma doentia. Por vezes, deixa que passe por mim um aroma de esperança, leva-me a acreditar que vou ser feliz. Depois arranca a cortina, e empurra-me para o nevoeiro. Ri-se. Abtraio-me. Ri-se. O meu eco desvanece poço abaixo. Há momentos de solidão em que me permito estar comigo sem abafar que existo, e sinto estar a viver o último dia da minha vida. A quem ligo? A quem digo adeus? A quem peço desculpa? Na verdade... nada me prende a não ser o meu medo ...