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A mostrar mensagens de março, 2014

Corro ao encontro

Às vezes sinto lástima por não estar ligada a ninguém, ser assim, solta dos fios que me rodeiam. Algo contrapõe esta sensação, se não estou presa a ninguém, ninguém me prende, ninguém me agarra, quem me para? Ninguém. Quem me salva? Eu. O que sobra? A liberdade para ser quem eu quiser, fazer decisões pensando no que será melhor para mim. Porém, esta lástima ainda está aqui, porque é-me triste saber que não tenho ninguém para abraçar, com quem fazer troça a brincar, demonstrar amor em gestos de desprezo, essa coisa a que chamam apego, é-me triste não ter. Qual é a alegria de ser livre se não tenho com quem correr? Procurei sinónimos de tristeza: melancolia, desgosto, depressão, insignificância, infeliz... Sim, é isso, são esses os termos com que me relaciono, porque sinto que a liberdade perde significado sem ninguém por perto com quem a partilhar. Procurei sinónimos de alegria: satisfação, divertimento, festa... Quem festeja sozinho? Sim, temos de festejar os próprios feitos, auto-fest...

Coisas e vida

Restaram as memórias melhores, que atacam o presente quando a guarda está de baixa para dizer o quanto melhor era o passado. São truques, truques do diabo! Daquela coisa que vive em nós e que se alimenta da nossa fraqueza, por isso é que temos de treinar o lado bom, o lado corajoso, estático e livre. Às vezes... naqueles dias em que nos deitámos tarde e acordámos cedo, em que estamos um pouco exaustos e arrependidos por termos desprezado o nosso descanso, essa coisa aproveita esse cansaço, aspira-o e cospe-o de volta para nós, mastigado e torturado, se não nos afirmarmos, se não nos suportarmos como seres autónomos e capazes de controlar quem somos, o que fazemos e como nos sentimos, essa coisa ruim, apanha-nos, mastiga-nos, come e até mata, se deixarmos...! Se deixarmos, as coisas dos outros seres atacam-nos também. Quantos diabos andam por aí? Ora, tantos quantos seres somos e quantos tantos mais criarmos! Por isso, atentem na fraqueza que vos tenta consumir, na pobreza de espírito q...

Mel mar

Mel que escorre dessa cascata Delicia a pele de quem se sujeita a parar no tempo Que doce é a superfície Mas o mergulho torna-o salgado Porém, debaixo vêem-se os corais e os recifes Vê-se o que do passado resultou Rochas que se afirmam tão intensamente, A suave corrente que passa, gasta-as Moldam-se diferentes Permanecem presentes No entanto renovam-se Provam a melodia Da beleza sem fim

Ir por onde?

Debaixo do céu que nos assiste, caminhando de mão dada à esperança que sempre nos agarrou a um caminho. Os sapatos estão gastos, descalço-me, sigo. Dizer que te amo? Nunca. Mas vou um dia deixar de me sentir assim, encontrar alguém que agarre nesta mão livre, alguém que deixe a esperança sem trabalho porque, o que haverá mais a esperar? Terei a felicidade em mim e, parte dela, a meu lado. Por instantes, pensei que nunca ia amar ninguém, tu e ele, encaro-vos como provas de que não sou insensível como me pintam. Eu pintei-vos também, mas as vossas cores, eu nunca as vi. Determinei metas, deixei-as morrer, deixei-as matarem-me um pouco e, neste mundo por vezes oco, eu penso se alguma vez a vi, a pessoa que está à minha espera, como eu a espero. Seremos passageiros separados por algumas carruagens? Vou seguindo caminhos, fazendo desvios, levo a vida tentando sentir-me o mais leve possível, para que o vento do destino me leve onde ele me quer ver chegar. Ir por onde? Vou por mim, um dia, e...

Hoje não estou

Não ressinto os que partem dizendo que se apaixonaram, mas aqueles que desaparecem sem dizer. Não me devem nada, nunca foi um contrato, mas se me tivessem justificado eu não sentiria arder cada vez que os vejo ser felizes. Felizes como eu quis ser, feliz como eu quero sentir-me. Quando há lógica no fim, haverá lógica a pôr-se sob sentimentos de ciúme, mágoa, ressentimento, mas quando não existe, esses alimentam-se entre si, apoderam-se de mim. Hoje, estou magoada, triste, cansada, quero chorar as lágrimas que não correm há meses, lágrimas que não correm à mesa e, em cada lágrima, libertar-me de toda a gente que não me pertence, merece ou me esteja destinada. Foda-se! Ó destino, se é para assistir a cenas destas para me provares que não fazem parte do meu caminho, revela-me o próximo, não um qualquer ou mais um que faça parecido, alguém que me aceite, respeite, alguém que fique comigo. Claro que depois de anos a construir paredes, pôr máscaras e colocar fachadas, há dias que essas caiem...

Esperamos a primavera

Passamos de um dia à espera, para uma semana. A esperança fica parada, equilibrada na corda, com medo de andar e cair, fica à espera que ele a alcance. Passamos de uma semana a um mês. No mesmo sítio, posamos para atrair o que está na ponta da corda a observar, parece-nos resultar. Os meses acumulam-se tanto que verão torna-se inverno e a primavera está quase a ser. Numa margem de segundos, olhamos para baixo e, quando o nosso olhar regressa, já não está lá ninguém a olhar de volta, ele foi embora. Restamos apenas nós, o corpo e o coração ferido pela esperança de o ver chegar. Sentimos o frio apoderar-se do que do amor, vingativos ficamos, mas nada fazemos, invejamos aquele que o tem agora como amor e, a pouca dignidade que resta, perguntará até à primavera o porquê de ele ir sem nunca avisar ou se despedir. Regressamos passo a passo, lentamente, até ao sítio onde ele outrora ficou, alimentando a esperança de que com o brotar das flores, brote também um novo amor.

Já nos conhecemos?

- Uma vez conheci-te num sonho quando acordada, criei a tua pessoa sem saber que existias e, surgiste um dia, revelando-te como essa pessoa que eu idealizei. Conheci-te, mas preferia que nunca tivesses ultrapassado a parede que separa a imaginação da realidade, desejava que nunca te tivesses revelado como concreto porque conheci-te e fiquei presa nessa teia. Agora, quando sonho acordada, tento não caracterizar a personagem ou caracterizo-a em excesso, de forma a que seja impossível essa ser concreta e existir no plano real. Talvez a mesma pessoa que me ouviu à primeira, oiça agora também: revela-me alguém que se aparente rio e me leve ao mar. Que essa pessoa seja tão incrível que me faça esquecer que te conheci, tão incrível que, quando te questionares do meu paradeiro e me alcances tentando reavivar cinzas perguntando se já nos conhecemos, eu me lembre apenas do teu erro premeditado e tu sejas absolutamente desvalorizado e eu irei responder "se já, eu não me lembro".

Ele espera por mim

Numa das minhas quimeras, ele espera por mim. Na realidade, ele está apenas sentado a sorrir, mas na esfera infinita da ilusão, ele espera por mim, aguarda na esperança de me ver chegar, pratica o melhor sorriso para me dar, veste a roupa não para agradar o seu ego, para me agradar. Nesta interpretação conscientemente fictícia, sinto uma verdadeira alegria palpitar, embora saiba que não é verdade, é um sonho pequeno, mas o suficiente para me agradar. Ele espera por mim. Vários bancos e mesas de pedra ocupam um espaço vasto que tem vista para um edifício degradado, onde cabe ainda o céu, parte desse espaço, abandonado, é integrado por outro conjunto de mesas e cadeiras de plástico, fazem parte do mesmo, mas não combinam. Como eu e tu, não combinaríamos juntos, lado a lado, não pareceríamos o par ideal, a harmonia, mas imagino que o sentiríamos, o odor da felicidade. Imagino que crias um ritmo ao percutir os dedos numa dessas mesas, coordenado com os risos das crianças, eventualmente, ...