O tempo ficou suspenso, algures. Tenho os pés assentes na terra, contra a minha vontade. A névoa paira na mesma, chamá-la de proteção é crucificar-me mais ainda. Doeu na mesma e ainda dói. Os dias não acabam, parece sempre o mesmo. Rir não tem sabor, comer não sacia. Não foi alguém que bateu à porta desta casa, foi esta casa que o levou para outra porta. Talvez não tenha chorado mais porque chorei outras vezes e tanto antes daquele dia. Para mim, não foi o começo do verão, não foi o solistício, nem me lembrei que era isso, foi o teu último dia. Já passaram dois, parece-me o mesmo. Vai ficar para sempre a voz em mim, a dizer-me que eu podia tê-lo aguentado mais tempo, mais o verão pelo menos e depois gritam os racionais que foi para ele não sofrer mais e ainda a clínica que diz que é contra a política deles, quando se podia fazer mais. Nem sei se o que fiz foi despedir-me de ti, acho que já nem me vias, nem sei se pressentiste o que te fizeram, desculpa, desculpa, desculpa... Nunca sen...
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A mostrar mensagens de junho, 2015
Cuspo não cura dor
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Esse mememé cem vezes já mastigado Cruzado com chiquisse tiada de cravas intenções Para o raio que ta parta! Essa máscara consegue ser pior que a entremeada. Estou para contar quantas vezes conseguem repetir a mesma piada, Aquela que nem sequer inventaram. "Tamu junto" Estão pois, na mesma ignorância pegados. Falinhas mansas azedas, longe do meu braço. Ai de ti que toques no meu prato, Porque aí vais experimentar a minha mão repentinamente junta com a tua cara. Sim, estou um bocadinho chateada. Com a podridão das consciências, Com os hipócritas que dizem que tenho cara trancada, mas são piores por dentro do que eu por fora. Sofro de sensibilidade, de coração esponja. Essas conversas de chachada de chacina à chacota Não me dizem mesmo nada È que eles não me disseram mesmo nada Falaram sobre todos menos os que lá estavam Estou sim, estou chateada Revoltada, cansada Já chorei outra vez por medo que a morte bata na minha porta Não este verão, este não, m...
No dia em que te amar
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As folhas continuarão a cair, mas não irei chorar. O frio entrará mesmo de janela fechada e debaixo de três cobertores, não irei esconder-me, sairei à rua, deixarei o sol aquecer-me. Será automático manteres uma postura erguida, de caminhar sem receio de olhar em frente, irás ver o mundo e não o chão, deixarás de contar as pastilhas esmagadas, amassadas, passarás a contar sorrisos, sopros de riso e ondas de mar. Ao peito trarás agarrado um espelho, para veres sempre o que sentes, irás adormecer assim, sem medo de sentir. Essa rouquidão da alma será curada com a tua nutrição própria, terna, tenra, constante crescente. Poderás olhar a lua sem receio que fuja do dia, ela estará lá, tu também. As tuas pernas serão tão irrequietas quanto essa tua cabeça, correrás tal como quando estás embebida de desinibições. São más, mas revelam-te e essa és tu, nesses poços de arrependimento há pequenas poças refletem o melhor de ti, sim, és tu, és mesmo mesmo tu. Beija-a, leva esse sabor contigo para t...
Vou dizer-te o que está errado
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Essa mania que tens de acordar em modo automático, sem deixares que o sol te queime a visão e te deixes habituar à luz. Esse jeito de te esconderes no cabelo e escondê-los debaixo de roupa, a mania de desviares o olhar de alguém que te olhe. Tens medo que te vejam. Esse impulso que ganhaste de querer estar com pessoas, de interagir, de comunicar, esse não é errado, mas quando ficas à espera que te convidem e nada te dizem e te sujeitas a pedinchares indiretamente se podes ir, se eles te quisessem lá, eles diziam. Queres sair, mas com quem? Quem é que te convida sem teres de perguntar a todos se vão na esperança de um convite? E esse rancor que tens de carregar, de saberes que te deixaram de lado, que não és parte deles, está confirmado e ouve, lê bem, não invistas neles, investe em ti. Não corras atrás, corre por ti, sê por ti. Um ano passado desde o ano passado. Lembraste? Lembraste bem mesmo que a memória o tente suprimir pelo teu bem. Mais anos passaram desde pior que o ano passado...
Porque só sou eu quando nada se impõe?
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Superei mais de meio dia fechada numa escola até ao fecho da oficina, fixada num ecrã durante a maioria desse tempo. Sem jantar, sem dormir o suficiente, isto depois de ter tido um mau estar no dia anterior, começar a ver mal, forte dor de cabeça e enjoo. Os meus olhos ardem, o meu cérebro deve estar em piloto automático, assim como a minha voz e o meu raciocínio. O meu corpo queixa-se, tanto quanto eu, requer que durma e muito, mas ainda me falta um amanhã, final. A névoa adensou, ainda espero que se evapore, mas numa semana como esta, este correr para lá e para casa, não ficando cá dentro, sendo uma mera passagem nos lugares a que chego, sem nunca ficar, ainda não expirei a saturação. Talvez entre por estes caminhos a invisibilidade que se atira para os meus olhos, para me ajudar a ultrapassar estes episódios, mas é um atrofio amargo não sentir a porra da minha presença, a minha própria pessoa. Não dei o melhor de mim, na lista de desculpas estão: não houve tempo, cansada, sem ideias...
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Tanto tempo para nós, Nosso Este chão, aquele sofá A água fria que pisas com receio O luar que pouco vês por distração Qual foi a última vez que paraste? E bebeste de tudo o que te rodeava, Mataste a sede à liberdade... Deixei de contar as vezes que querias abraçá-los Deixei de contar-lhes o que se passava Nessa tua cabeça, que nada de oco tem Tão cheia de desperdício, vício e corrupção Sabes o que poderias ser se não o fosses E essa mão que estendes a tanta gente À espera que a entrelacem, Agarram-na e arrancam-te o perdão Derramam no teu ombro as lágrimas, revoltam-se O espelho vira, eles não estão lá O teu grito é em vão e abafado Os teus pecados são vistos sem fundamento Sei que vives em constante pesadelo E a tua fuga é dormir Porque é o mais perto de real que tens, De um abraço, de um sopro quente, de um riso, de luz ardente Temos todo o tempo do mundo Mas a tua demora não acompanha o passo Quando a disposição está, o momento já está gasto.
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Nas entorpecidas presenças, sinto-me mais perto da realidade ao fechar os olhos, ao tentar ver o que sinto em vez de sentir perante o que vejo. Aquele prato já não desejado, a ocasional chávena com café, o habitual gosto de estar fechada, já não cabem em mim. O mar evoca-me a estar perto dele, a água perto do toque, a brisa leve sobre a pele, embalam-me. Que martírio não poder sentir essas pequenas alegrias, não peço mais senão que sinta, que presencie. Neste semestre acho que tenho escrito demasiadas vezes as mesmas palavras, não encontro outras, estou perante o mesmo cenário ainda. Apenas sou mais eu quando estou livre de responsabilidade, de prazos, queria saber como estar assim descontraída mesmo estando com pilhas de algo para fazer. Quem corre por gosto não cansa, por isso quem não encontra o gosto, deterioriza-se lentamente.