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A mostrar mensagens de março, 2021

Deixo

 Deixo cair as cortinas, o pano, o véu, as armas. Vou lá fora, e destruo o muro, parto a fechadura, atiro as chaves. Arranco as fachadas, arranco portadas, arranco os cartazes. Deixo-me cair, deixo-me afogar, vou até ao fundo, e medito. Piso o chão com a revolta de todos os anos, e vou de volta à tona. Respiro. Quer a vida de mim tanto eu quero dela, mas constantemente nos desencontramos. Desde o início que o meu caminho foi desviado, e estou desde sempre a tentar encontrar o farol que me levará a casa, a chegar até mim. Vivi poucas vezes a sensação de ser feliz. É a droga da vida, a que lhe dá fôlego, sentido, a que incentiva a pisar o mundo com confiança. Acordar com vontade de sair, falar com vontade de ouvir, viver com vontade de sentir. Deixo-me cair, derrubada por todos estes meses. Admito que perdi, deixei que me derrubassem e roubassem tudo, e perdi-me. Agora repouso, tento acalmar a tempestade que me enrola cá dentro. Até amanhã. Até um dia. Até ao dia em que chegar a casa...
Absurdo perceber que todos querem o que posso dar, e não quem sou. Mas o que posso dar, já acabou. Já só me resta quem sou. E se deixo de dar, não me resta ninguém. Não sou por partes, sou por inteiro. Vazaram-me a alma, mas do vazio posso fazer inteiro. Consumiram tudo o que tinha, todo o meu bem, os meus sorrisos, o meu tempo, a minha essência. Mas tenho palavras, e tenho-me aqui. Gostava de poder desabar, mas não posso. Desiquilibro-me, caio, e nada me resta senão continuar, mesmo ferida, cansada, perdida. Continuo, pelo propósito que tenho a cumprir com a vida. Se desabo, caio para o fundo de mim mesma, dou tudo por perdido. Não sei o que me carrega dia após dia. Que faço senão carregar as mágoas, as frustrações e o que querem de mim?  Foda-se. Foda-se o mundo que nada quer comigo, mas tudo quer de mim. Fodam-se as reticências e as consequências. Foda-se as superfícies, fodam-se à superfície, que não me faz sentido se não for por inteiro. Que se foda o que parece, eu viro-me do...

Nunca foi falta de alma

Estes dias passam demasiado rápido, e enquanto tento acompanhar o ritmo, não vivo em cada momento. Quando estou pronta a abraçar, foge-me o tempo, fogem-me as horas, os pensamentos, as memórias. Parece que agora que estou a fazer de tudo para começar de novo, a vida limpou automaticamente tudo o que não fará parte dessa realidade. Mas que me desse um tempo, só para recuperar o fôlego no meio desta tempestade. É como caminhar por dentro de um tornado, como mergulhar debaixo da onda, ir para lá da rebentação. Estou uma concha de mim, deixei de conseguir sequer suster qualquer estabilidade mental. Estou perdida entre quem sou e quem estou a investir para ser. Será fácil partilhar depois quando lá chegar, e irá compensar todos estes dias, mas agora, está uma loucura, não sei o que me segura para não tombar. Há semanas em que dormir não me descansa, correr não me cansa, fazer yoga não me acalma, a música não me embala. Não tenho nada que me acalme, nem refúgio onde poisar por momentos. Há ...