Absurdo perceber que todos querem o que posso dar, e não quem sou.
Mas o que posso dar, já acabou. Já só me resta quem sou. E se deixo de dar, não me resta ninguém. Não sou por partes, sou por inteiro. Vazaram-me a alma, mas do vazio posso fazer inteiro.
Consumiram tudo o que tinha, todo o meu bem, os meus sorrisos, o meu tempo, a minha essência. Mas tenho palavras, e tenho-me aqui. Gostava de poder desabar, mas não posso. Desiquilibro-me, caio, e nada me resta senão continuar, mesmo ferida, cansada, perdida. Continuo, pelo propósito que tenho a cumprir com a vida. Se desabo, caio para o fundo de mim mesma, dou tudo por perdido. Não sei o que me carrega dia após dia. Que faço senão carregar as mágoas, as frustrações e o que querem de mim?
Foda-se. Foda-se o mundo que nada quer comigo, mas tudo quer de mim. Fodam-se as reticências e as consequências. Foda-se as superfícies, fodam-se à superfície, que não me faz sentido se não for por inteiro. Que se foda o que parece, eu viro-me do avesso e vivo como sou por dentro, quem demorei demasiado a ser. Eu, mesma, que me foda, e que se fodam todos vocês. Vou viver.
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