Deixo

 Deixo cair as cortinas, o pano, o véu, as armas.

Vou lá fora, e destruo o muro, parto a fechadura, atiro as chaves. Arranco as fachadas, arranco portadas, arranco os cartazes.

Deixo-me cair, deixo-me afogar, vou até ao fundo, e medito. Piso o chão com a revolta de todos os anos, e vou de volta à tona. Respiro.

Quer a vida de mim tanto eu quero dela, mas constantemente nos desencontramos. Desde o início que o meu caminho foi desviado, e estou desde sempre a tentar encontrar o farol que me levará a casa, a chegar até mim. Vivi poucas vezes a sensação de ser feliz. É a droga da vida, a que lhe dá fôlego, sentido, a que incentiva a pisar o mundo com confiança. Acordar com vontade de sair, falar com vontade de ouvir, viver com vontade de sentir.

Deixo-me cair, derrubada por todos estes meses. Admito que perdi, deixei que me derrubassem e roubassem tudo, e perdi-me. Agora repouso, tento acalmar a tempestade que me enrola cá dentro.

Até amanhã. Até um dia. Até ao dia em que chegar a casa.

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