Nunca foi falta de alma

Estes dias passam demasiado rápido, e enquanto tento acompanhar o ritmo, não vivo em cada momento.

Quando estou pronta a abraçar, foge-me o tempo, fogem-me as horas, os pensamentos, as memórias. Parece que agora que estou a fazer de tudo para começar de novo, a vida limpou automaticamente tudo o que não fará parte dessa realidade. Mas que me desse um tempo, só para recuperar o fôlego no meio desta tempestade. É como caminhar por dentro de um tornado, como mergulhar debaixo da onda, ir para lá da rebentação. Estou uma concha de mim, deixei de conseguir sequer suster qualquer estabilidade mental. Estou perdida entre quem sou e quem estou a investir para ser.

Será fácil partilhar depois quando lá chegar, e irá compensar todos estes dias, mas agora, está uma loucura, não sei o que me segura para não tombar. Há semanas em que dormir não me descansa, correr não me cansa, fazer yoga não me acalma, a música não me embala. Não tenho nada que me acalme, nem refúgio onde poisar por momentos. Há semanas em que chega demasiado de tudo, e não chega mais ser.

A vida empurra-me com a força de uma avalanche que vem desde há muito a crescer, e eu sei, que é agora que salto de vez, que aterro finalmente onde começa o resto da minha vida.

Quero tanto chegar a esse mar alto e calmo, que balança com o vento. Espera-me atento, e eu vou tentando lá chegar, mesmo a nadar contra a corrente. Talvez no meio de perder tanto e tanto me perder, encontre alguém que nunca pensei possível ser, eu, livre de amarras e de todos os meios que me controlam e reduzem.

Nunca foi falta de alma, foi falta de espaço para a ter.

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