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A mostrar mensagens de 2019

Viver não é só respirar

Já passaram mais de dois meses desde que hasteei bandeira branca. Quase ninguém sabe, e hoje eu conto. Desde sempre que travo uma batalha comigo. Uma que se prende com tantas outras, já todas dadas como perdidas. Normal para mim é não estar bem. Desde sempre que tive a sensação que estava pré-formatada para não ser feliz. E tudo em mim e à minha volta contribuía para que não fosse. Como nunca consegui curar esta âncora que me arrastava, adaptei-me às feridas que me causava, e a tantas outras que me foram atingido simultaneamente. Moldei-me à dor, deformei-me com ela, e eventualmente tornei-me estátua, estática e apática. Então o que se faz quando se é a própria pedra no caminho? Quando te dizem já ser tarde para apontar aos outros a culpa, mas que a própria culpa é demasiado pesada para ser carregada só por ti? Quando te dão como solução perdoares sem nunca ninguém ter pedido perdão? Quando te olhas aos espelho e repugnas o que reflete? Quando o vazio é tão pesado, e sufoca...
Vais dizer que Voar não tem preço E mesmo assim é menos Do que mereço Quando de todas as cartas da mesa Nenhuma está virada E tens de sair A crer que alguma delas te garantia asas

Partículas

Um pouco de amarelo para as paredes aparentemente imunes ao caos que dentro delas habita. O ruído atravessa toda a casa, a raiva sempre prestes a rachar os cantos, a brisa que corre sem conseguir soprar o peso das angústias. As partículas vagueiam, cruzam-se, evitam-se, fingem não saber que coexistem com outras. Talvez se for particular para outro sítio... pensa a partícula. E vai, e volta. Quando será a última vez que sairá sem regresso? Apenas como visita. Entretanto existe, continua com a vida. Um dia talvez, vá.

Ser e Viver

Do que mais prova que não estou bem, é que nem escrevo. Estou tão sonâmbula e imune à vida que nem a dor nem a felicidade me atravessa ao ponto de me inspirar ou deixar-me a arder para despejar o que sinto. Poderia continuar a divagar, a arrastar-me pela vida assim. Mas "assim", por mais que tenha um trabalho melhor, uma vida num sítio mais iluminado, um espaço só meu, não irá curar o que tem de ser tratado cá dentro. Que pesa, amassa, me impede de me entregar de alma à vida; com todos os riscos. Só dos riscos podem resultar as maiores felicidades. Um passo no escuro, e outro, e mais um. Não é sobre apagar a luz ao medo, é sobre aprender a domá-lo. É sobre perdoar; o meu passado, as pessoas que me moldaram, e a mim mesma, para poder dar cada passo com tudo de mim. Só resolvendo o passado, poderei aceitar o agora, viver e ser no momento. E depois, naturalmente, sem pensar, irei escrever. Porque terei sentido ao ponto de o ter de contar. Irei fotografar porque terei o que c...

As Casas e os Quartos Vazios

Quero uma Casa. Daquelas para decorar com memórias. Daquelas onde as paredes são abraços. Daquelas para preencher de amor. Um lugar ao qual dar o nome de. Sentir-me em. No qual convidar todos os que partilham o seu brilho com o meu mundo. No qual poder dizer fica o tempo que precisares. Olha para as paredes e lerás a minha história, senta-te e ouvirás as letras que me fazem frase. Casa onde a porta nunca será serventia da casa, apenas de amor. Da qual poderás sempre sair, sem ter medo de voltar. Na qual poderás entrar, sem medo do que está para vir. Na qual não terás de baixar a voz, nem apagar a luz. Aqui brilharás tanto quanto queiras, e voarás tão alto quanto sonhes. Eu sei que me esperas, e irás chegar quando estiver pronta. Quando te apresentares no meu caminho, saberei que és tu porque irei sentir por ti, o que terei então aprendido a sentir por mim.

Foi sem querer

Irei um dia morrer a dizer que está tudo bem. Não finjo de propósito, é inato. Assim que atravesso a porta para a realidade, estou em modo automático. Sou minimamente eu, o suficiente para não transparecerem as feridas, os dilúvios. Sozinha, o peso do mundo cai-me nos ombros, escorre-me piano abaixo e desalinha-me as teclas. Desafinada não canto. Sinto que carrego uma dor mórbida, que nem um sol de esplendor consegue ofuscar. Não sei de onde vem tanta dor, tanta mágoa, tanto ressentimento. Corrói-me, destrói-me lentamente de uma forma doentia. Por vezes, deixa que passe por mim um aroma de esperança, leva-me a acreditar que vou ser feliz. Depois arranca a cortina, e empurra-me para o nevoeiro. Ri-se. Abtraio-me. Ri-se. O meu eco desvanece poço abaixo. Há momentos de solidão em que me permito estar comigo sem abafar que existo, e sinto estar a viver o último dia da minha vida. A quem ligo? A quem digo adeus? A quem peço desculpa? Na verdade... nada me prende a não ser o meu medo ...

Sem corda

Ultimamente oiço a tua voz, e penso estar a ouvir ecos do fim. Oiço essa voz e é a que assumo como real. Se a tua voz me soa desesperada, eu acredito não ser capaz; de olhar para outro lado, e viver. Eu não sei se te cale de vez ou te ensine a falar como devias já saber. As luzes acendem-se, os palcos enchem-se de ritmo, e sinto que não pertenço ali, nem aqui, nem sequer a mim. Esta desconexão não é liberdade, é uma prisão invisível. Se falta propósito, falta-me razão. Se tenho razões, mas não ressoam no epicentro, não sei que mais faça para sentir, nem sei se tente, sinto que só falho. Lembro-me de rir até às lágrimas, do teu abraço apertado, das noites cheias de eco, da vista alta sobre aquela cidade,  do 'sim' ser corajoso, os sorrisos mais rasgados, e os olhares mais partilhados. Sabes? Tenho saudades e não digo. Porque estão longe de mim, e por perto, nem eu estou de mim. Estou mal, e disfarço com cansaço. Mas acreditam porque eu caminho, e continuo. Mas eu hesito, largo...

we belong to the present

and as tender as the warmth of the fireplace you hold me like all my pieces fit together and i love you like i should love myself you pulled the curtain out of the gray the light shined through you lead me to the window view  first i saw the stars through the reflections on yours eyes then i heard the sea calling me out we jumped and landed on the soft mattress of the past it didn't hurt we were grateful we headed south to the present now we belong together.

Quando

Quando as ondas pararem de desabar em terra, talvez o compasso finalmente me revele o norte, e caia a cortina que me separa da realidade. Tenho saudades de ser atingida pelo encantamento da vida, do efémero, da saudade, do tempo contado, do tempo mais vivido. Faz-me mal a rotina, a camada fica cada vez mais densa, o cinzento cada vez mais carregado. Não há carvão que incite fogo que não arde, que não queima. E eu prefiro queimar que arder sem chama e desvanecer-me em cinzas, do que nunca saber o que é arder tão intensamente que nada resta para queimar. Quando o sol abalar a sombra, e atravessar os meus olhos e as grades desta prisão, e eu pisar finalmente um caminho à luz, talvez tudo faça sentido. Só caminho com a quase invisível esperança que um dia tudo faça sentido, e que os porquês tenham resposta, que eu suba o mais desafiante dos degraus, mas a paisagem valha a pena. Quando sinta mais cor que vazio, talvez tudo faça sentido.

Voltar

Faz muito tempo desde a última vez que escrevi por sentir. E faz muito tempo porque há muito tempo que não sinto algo que me cative, que me desperte. A rotina cobre o que está a turbilhar por baixo da pele. Um caos silencioso que, por vezes, vê a luz do dia e está com a ponta dos dedos na falésia. Há um vazio, um eco sufocante. Então acrescento mais mantas, para sentir mais peso. Então anulo-me dormir menos, vidro-me em ecrãs para desfocar a minha vida. O vazio é tanto tudo, é o vazio de um espaço, de voz, de abraços, de amor.
If you can love me with open wounds just wait until I'm healed.