Quando
Quando as ondas pararem de desabar em terra, talvez o compasso finalmente me revele o norte, e caia a cortina que me separa da realidade. Tenho saudades de ser atingida pelo encantamento da vida, do efémero, da saudade, do tempo contado, do tempo mais vivido. Faz-me mal a rotina, a camada fica cada vez mais densa, o cinzento cada vez mais carregado. Não há carvão que incite fogo que não arde, que não queima. E eu prefiro queimar que arder sem chama e desvanecer-me em cinzas, do que nunca saber o que é arder tão intensamente que nada resta para queimar. Quando o sol abalar a sombra, e atravessar os meus olhos e as grades desta prisão, e eu pisar finalmente um caminho à luz, talvez tudo faça sentido. Só caminho com a quase invisível esperança que um dia tudo faça sentido, e que os porquês tenham resposta, que eu suba o mais desafiante dos degraus, mas a paisagem valha a pena. Quando sinta mais cor que vazio, talvez tudo faça sentido.