Ele espera por mim

Numa das minhas quimeras, ele espera por mim. Na realidade, ele está apenas sentado a sorrir, mas na esfera infinita da ilusão, ele espera por mim, aguarda na esperança de me ver chegar, pratica o melhor sorriso para me dar, veste a roupa não para agradar o seu ego, para me agradar.
Nesta interpretação conscientemente fictícia, sinto uma verdadeira alegria palpitar, embora saiba que não é verdade, é um sonho pequeno, mas o suficiente para me agradar. Ele espera por mim.
Vários bancos e mesas de pedra ocupam um espaço vasto que tem vista para um edifício degradado, onde cabe ainda o céu, parte desse espaço, abandonado, é integrado por outro conjunto de mesas e cadeiras de plástico, fazem parte do mesmo, mas não combinam. Como eu e tu, não combinaríamos juntos, lado a lado, não pareceríamos o par ideal, a harmonia, mas imagino que o sentiríamos, o odor da felicidade. Imagino que crias um ritmo ao percutir os dedos numa dessas mesas, coordenado com os risos das crianças, eventualmente, assobias e deixas-te envolver por esses sons que te afastam do que te assombra. Ele espera por mim. A espera é longa, mas não o dia, o frio alcança-te num sopro mais intenso, acendes aquilo que te ilumina, que te afasta dos problemas, da vida. Estás assim, no mesmo sítio mas sempre a fazer algo: pensas, esperas, ris, sorris... até que te aborreces finalmente pois eu não cheguei. Ele espera por mim. Eu não vou chegar... eu nunca cheguei a ti, por mais perto que esteja, mesmo que vá, mesmo que esteja, eu não chego até ti, eu não chego para ti. Ele espera por mim.

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