Dois
Há tempo que não paro para escrever mas é que agora sinto e percebo um pouco. Percebo que não tenho percebido nada, que não tenho estado completamente presente nos momentos - continua a ser o meu maior desafio. Mais ainda porque perco a noção e estou constantemente desfocada que nem consigo depositar-me. O pouco que consigo processar é que o tempo é muito fugaz.
Admito que fugi e tento ainda fugir de tudo o que passei no meu país, de mim, de todas as minhas memórias e fases que não quero ver refletidas no que sou mas ainda me olho ao espelho e vejo a dor encarcerada, aquela que tentei pôr debaixo do tapete. Não o fiz de propósito mas a certa altura estava curada, sentia-me bem, a minha pele estava radiante e os meus olhos sorriam. Mas tornei-me adulta, fui para a faculdade e... sei lá, caiu sobre mim um manto de névoa e uma carga de inseguranças que abalaram todo o progresso. Desde aí, estou aqui, assim. Fugi mas também precisava de um sítio novo para começar algo, não sei bem o quê, precisava de um sítio novo onde pudesse experimentar ser eu e viver. Ainda noto que escrevo com a mesma merda de caneta, com os mesmos velhos hábitos, mas algo já mudou ou está a mudar e se no fim de tudo eu conseguir ver mais claro e estar mais consciente de mim, já terei orgulho. Não foi tudo perfeito desde que aqui cheguei mas tudo o que vivi foi tão mais sentido, tanto que num fechar de olhos já pressinto o quanto vai custar ir embora, sinto que já vivi uma vida em só apenas dois meses. Dois.
Já desabei sobre mim mesma e chorei com um aperto sufocante, não de saudade, mas de todo este caos atormentado que me circula. Desmanchei-me sobre mim mesma, derramei lágrimas como há muito não o fazia porque por baixo da fachada trancada, do nevoeiro, das saídas, das experiências, do currículo, está alguém que ainda não sabe como resolver ser, que sofre de luz apagada e em silêncio, que não diz a ninguém porque "isso já devia ter passado". Eu sei, porra eu sei. Mas mesmo assim, já valeu tanto estar aqui, muito mais do que ter ficado onde estava. Espero que me empurre a cair sobre mim.
Ainda tenho cá dentro uma miúda que não consegue acreditar que alguém goste dela simplesmente por ser quem é, porque as pessoas mais próximas me voltaram costas, não me abraçam, não me ligam. E eu sei que isso não é desculpa, mas eu cresci nessa realidade e moldou-me assim. Mas é que é tão injusto só ter alguém por perto quando eu estou melhor. E quando mais preciso? Não está ninguém. É que já não choro tanto como antes mas sofro a mesma quantidade apenas de diferente maneira; acumula-se e depois eu sufoco e tenho de ainda aguentar o peso da solidão a abraçar-me de uma maneira tão doentia.
Acho que só precisava mesmo de alguém que me pegasse na mão, olhasse para lá dos meus olhos e considerasse que existo enquanto me entregasse um "eu percebo-te". Alguém que me veja mesmo quando estou tão nula e desvanecida, alguém que não receie que se vá embora. É que me sinto constantemente a andar sobre gelo porque a certa altura as pessoas deixam de querer estar ao meu lado e, pior ainda, quando ficam ao meu lado fisicamente mas não estão lá, não ouvem o que digo, não querem saber, quando passo a ser um mero acessório por vezes conveniente.
Sei lá... não sei.
Admito que fugi e tento ainda fugir de tudo o que passei no meu país, de mim, de todas as minhas memórias e fases que não quero ver refletidas no que sou mas ainda me olho ao espelho e vejo a dor encarcerada, aquela que tentei pôr debaixo do tapete. Não o fiz de propósito mas a certa altura estava curada, sentia-me bem, a minha pele estava radiante e os meus olhos sorriam. Mas tornei-me adulta, fui para a faculdade e... sei lá, caiu sobre mim um manto de névoa e uma carga de inseguranças que abalaram todo o progresso. Desde aí, estou aqui, assim. Fugi mas também precisava de um sítio novo para começar algo, não sei bem o quê, precisava de um sítio novo onde pudesse experimentar ser eu e viver. Ainda noto que escrevo com a mesma merda de caneta, com os mesmos velhos hábitos, mas algo já mudou ou está a mudar e se no fim de tudo eu conseguir ver mais claro e estar mais consciente de mim, já terei orgulho. Não foi tudo perfeito desde que aqui cheguei mas tudo o que vivi foi tão mais sentido, tanto que num fechar de olhos já pressinto o quanto vai custar ir embora, sinto que já vivi uma vida em só apenas dois meses. Dois.
Já desabei sobre mim mesma e chorei com um aperto sufocante, não de saudade, mas de todo este caos atormentado que me circula. Desmanchei-me sobre mim mesma, derramei lágrimas como há muito não o fazia porque por baixo da fachada trancada, do nevoeiro, das saídas, das experiências, do currículo, está alguém que ainda não sabe como resolver ser, que sofre de luz apagada e em silêncio, que não diz a ninguém porque "isso já devia ter passado". Eu sei, porra eu sei. Mas mesmo assim, já valeu tanto estar aqui, muito mais do que ter ficado onde estava. Espero que me empurre a cair sobre mim.
Ainda tenho cá dentro uma miúda que não consegue acreditar que alguém goste dela simplesmente por ser quem é, porque as pessoas mais próximas me voltaram costas, não me abraçam, não me ligam. E eu sei que isso não é desculpa, mas eu cresci nessa realidade e moldou-me assim. Mas é que é tão injusto só ter alguém por perto quando eu estou melhor. E quando mais preciso? Não está ninguém. É que já não choro tanto como antes mas sofro a mesma quantidade apenas de diferente maneira; acumula-se e depois eu sufoco e tenho de ainda aguentar o peso da solidão a abraçar-me de uma maneira tão doentia.
Acho que só precisava mesmo de alguém que me pegasse na mão, olhasse para lá dos meus olhos e considerasse que existo enquanto me entregasse um "eu percebo-te". Alguém que me veja mesmo quando estou tão nula e desvanecida, alguém que não receie que se vá embora. É que me sinto constantemente a andar sobre gelo porque a certa altura as pessoas deixam de querer estar ao meu lado e, pior ainda, quando ficam ao meu lado fisicamente mas não estão lá, não ouvem o que digo, não querem saber, quando passo a ser um mero acessório por vezes conveniente.
Sei lá... não sei.
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