Pessoas que se esquecem de pessoas que se lembram

Pessoas que nunca foram esquecidas não sabem lembrar-se dos outros. Sabem que os outros estão lá à espera, mas fazem para que se esqueçam. Enterram-se na rotina e na cobardia. Esquecem-se que a vida não é uma fita métrica pré-definida, é antes um rio que não se sabe quando vai desaguar e estagnar. É tão cruel que os que mais ignoram, são com quem mais nos preocupamos.
Nós. Os que pensam nos outros; no que eles pensam, no que sentem.
Eles. Que nos atacam, que nos desprezam.
Nós. Que os chamamos, que os ouvimos, que os perdoamos.
Nós. Que esperamos.
Eles. Que nos esquecem.
Estou no meio do meu campo ao mesmo tempo que assisto a isto como uma transmissão indirecta até onde estou. Posso afirmar com confiança que sei o desfecho do jogo a que assisto.
Um joga ao ataque, consecutivamente faz faltas que ninguém marca, o outro dos nossos fica lesionado ao ponto de o jogo parar. Ele arrepende-se, pede desculpa, mas o outro ficou incapacitado de jogar. O jogo acaba. Eram apenas dois em campo. Apenas ele fica. Atira-se de joelhos ao chão enquanto grita contra as suas mãos que o apertam e tentam rasgar a sua culpa numa tentativa inútil de a libertar. A relva desfaz-se em lama. Ele tenta tirar o equipamento mas continua um jogador, o único num campo vazio. Eu desligo a transmissão e derramo no sofá por tudo o que assisti sem nada mais poder fazer. Derramo enquanto me levanto e pego nas chaves. Saio do meu campo por aquele momento. A maca está vazia, a máquina está parada.
Os que se lembram, lembram-se sempre. Mas quem se esquece, arrepende-se tarde demais e vive para sempre assombrado.

Contour by Cláudia Espada on 500px.com
Fotografia: claudiacge

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