Desta vez sem ofensas.
Vou embora daqui a uns tempos. Depois de já ter ido a uma nova praia, depois de ter ido a concertos, depois de acabar um trabalho, depois de fazer duas décadas, depois de ir ao Alentejo, depois de nadar no rio Sado. Depois disso vou embora. E que me vai restar? Saudades e quero encher este verão de momentos recheados de boa energia, boa companhia, boa comida, boa saúde. Sair outra vez de casa mas sem antes derramar ao abraçar os meus bichinhos, o meu Osí, o meu Xuma, a Zuca. Se desatar a chorar pelo menos desato a fugir. Quero ter saudades mas não as suficientes que me façam querer voltar. Este tempo é meu e é para nutrir-me até literalmente. Está mais que no ano (sim porque já passaram vários) de ouvir o que diz a ciência do meu corpo, ela bem grita mas eu aprendi a não ouvir bem. Está no momento de descansar, de acordar a sorrir, de equilibrar a saúde, abusar dos risos, dos abraços, dos beijos escondidos. Está na hora de ser vida, não de voltar a ser o que era, mas reaprender a ser vida como já fui um dia sem dedicação, apenas por ingenuidade.
É claro que vou ter arrependimentos, faz parte das minhas vértebras corroídas. Vou ter um saco cheio de coisas que não disse, mas isso não vai caber na mala, felizmente. Vou já dizendo que tenho muita pena de ter perdido as ligações mas se calhar foi pelo melhor. Já me deixou mais triste, já me enganou, já fez de mim parva e agora já não faz mais nada. Já cheguei à fase de estar com quem está ao meu lado e não de tentar fazer por estar ao lado de alguém que não quer.
Quando eu vir o meu reflexo nas lágrimas dos rostos de quem abraçar vou saber o que é gostar de alguém que gosta de nós. Já sei dois que vão pôr-me a chorar sem quererem. Sou distraída, sou impulsiva com eles, reclamo demais mas sabem? Com quem falo mais alto é com quem mais estou à vontade. Eles deram asas às minhas vontades, deram-me o bocadinho de infância feliz, as viagens, a casa, a comida, as boleias, o dinheiro... tudo o que me fizesse alguém. Prometo que já sou alguém, vou só ali descobrir quem.
Desta vez, obrigada por tudo, do mal ao bem.
Desta vez vou e em breve chegarei.

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