Sobre não ter urgência de escrever
Esta é a minha primeira vez. A escrever sobre não escrever ou sobre não ter vontade de escrever. Passaram-se duas semanas desde que acabei as aulas. Duas semanas? Parece que passou um mês, estou tão exausta, mais cansada do que estive durante as aulas ou até durante a semana mais stressante de trabalhos. Há tanto tempo que não me surge a urgência de despejar letras. Este texto provavelmente vai parecer robótico ou esquemático, como se de uma lista de compras se tratasse.
Vamos lá rever o que se passou nestas duas semanas para me roubar a possibilidade de expirar de alívio por estar de férias. Pois estou mas não bem.
Voltei para Setúbal e no dia a seguir soube que a minha avó tinha sofrido um problema de saúde e caído e estava há dias sem ir ao hospital. Estava completamente desorientada, assustada, desamparada, sem a clareza e perspicácia que a tanto caracterizava. Algo não estava bem e confirmou-se. Depois de passar um dia inteiro no hospital, o que desconfiava ser, confirmou-se e foi tão real quanto isso. Ela ficou lá internada, muito contra a sua vontade. Mas problemas sérios requerem soluções ponderadas. Este confirmou-se como o segundo início de verão drástico. Saí apressadamente do hospital depois de me despedir dela, prestes a chorar, de revolta, de irritação, de incapacidade, de preocupação. Visitei-a todos os dias que ela ficou por lá, não a queria deixar sozinha, só queria que ela voltasse a ser clara como sempre foi. Deve ter sido a primeira vez que estar nos quartos dos hospitais não me fez mal disposta. Talvez por ter sido das primeiras vezes que tinha mesmo de lá estar. Segunda feira fui buscar tudo o que deixei de mim nas Caldas, mas só vieram os materiais que me pertenciam, acho que parte de mim ficou por lá, e uma das partes bem que precisava dela, a parte de mim que se ri e age que nem criança.
Passado quase uma semana lá internada, a minha avó voltou a casa e eu fiquei a metades, em casa e na casa dela. Nos primeiros dias, cuidar não foi um peso, mas rapidamente tornou-se desgastante. Não por mal, por mim. Chegava a casa de rastos e sem energia. Eu estava um caos, o meu quarto também. Disseram-me uma vez que eu era como uma esponja, e sou por isso tornou-se cada vez mais difícil estar lá, por mais que quisesse, por mais que a minha preocupação estivesse lá.
Estive lá até saber que podia não estar porque alguém poderia acompanhá-la nos momentos cruciais do dia; tomar o pequeno almoço, almoçar e jantar. Ela tem medo de estar sozinha, medo de cair sozinha outra vez, medo de acabar sozinha. Foi esse medo que tentei remendar desde que soube o que aconteceu. Espero que a minha presença tenha pelo menos desinfetado essa ferida, pelo menos, sei que tornou os seus dias mais claros. Já discursava com mais coerência, já está teimosa como de costume. Eu percebo o seu medo. Porque ela vive sozinha e tem um filho que é meu pai, e já nem pai sabe ser, mas pior ainda, é não ser um filho para a mãe. É um filho da mãe, um grande filho da mãe. Bastava uma chamada e ela não estaria os dias que esteve depois de caída. É triste. Por isso eu percebo o medo. Se nem o próprio filho está lá para ela, quem estará?
Estive enquanto pude. Conheci-a melhor e vi as amizades verdadeiras que tem. Vi o que é ter uma amiga de verdade. E ela tem, espero que ela veja. Ela está sozinha mas tem pessoas à sua volta. Espero que veja, e mais, espero que se sinta rodeada de gente.
Agora tenho trabalho e pouco tempo para aproveitar as férias, fui um dia à praia. Nos outros já disse o que aconteceu, nos próximos, tenho de trabalhar. Sinto-me em tempo de trabalho com uma ou outra folga. Pelo menos, vou fazê-las valer a pena, isso vou. Porque daqui a pouco (pouco porque vai passar depressa), tenho de fazer as malas. Desta vez não são para voltar, mas para ir.
Para ir e ser feliz.
Vamos lá rever o que se passou nestas duas semanas para me roubar a possibilidade de expirar de alívio por estar de férias. Pois estou mas não bem.
Voltei para Setúbal e no dia a seguir soube que a minha avó tinha sofrido um problema de saúde e caído e estava há dias sem ir ao hospital. Estava completamente desorientada, assustada, desamparada, sem a clareza e perspicácia que a tanto caracterizava. Algo não estava bem e confirmou-se. Depois de passar um dia inteiro no hospital, o que desconfiava ser, confirmou-se e foi tão real quanto isso. Ela ficou lá internada, muito contra a sua vontade. Mas problemas sérios requerem soluções ponderadas. Este confirmou-se como o segundo início de verão drástico. Saí apressadamente do hospital depois de me despedir dela, prestes a chorar, de revolta, de irritação, de incapacidade, de preocupação. Visitei-a todos os dias que ela ficou por lá, não a queria deixar sozinha, só queria que ela voltasse a ser clara como sempre foi. Deve ter sido a primeira vez que estar nos quartos dos hospitais não me fez mal disposta. Talvez por ter sido das primeiras vezes que tinha mesmo de lá estar. Segunda feira fui buscar tudo o que deixei de mim nas Caldas, mas só vieram os materiais que me pertenciam, acho que parte de mim ficou por lá, e uma das partes bem que precisava dela, a parte de mim que se ri e age que nem criança.
Passado quase uma semana lá internada, a minha avó voltou a casa e eu fiquei a metades, em casa e na casa dela. Nos primeiros dias, cuidar não foi um peso, mas rapidamente tornou-se desgastante. Não por mal, por mim. Chegava a casa de rastos e sem energia. Eu estava um caos, o meu quarto também. Disseram-me uma vez que eu era como uma esponja, e sou por isso tornou-se cada vez mais difícil estar lá, por mais que quisesse, por mais que a minha preocupação estivesse lá.
Estive lá até saber que podia não estar porque alguém poderia acompanhá-la nos momentos cruciais do dia; tomar o pequeno almoço, almoçar e jantar. Ela tem medo de estar sozinha, medo de cair sozinha outra vez, medo de acabar sozinha. Foi esse medo que tentei remendar desde que soube o que aconteceu. Espero que a minha presença tenha pelo menos desinfetado essa ferida, pelo menos, sei que tornou os seus dias mais claros. Já discursava com mais coerência, já está teimosa como de costume. Eu percebo o seu medo. Porque ela vive sozinha e tem um filho que é meu pai, e já nem pai sabe ser, mas pior ainda, é não ser um filho para a mãe. É um filho da mãe, um grande filho da mãe. Bastava uma chamada e ela não estaria os dias que esteve depois de caída. É triste. Por isso eu percebo o medo. Se nem o próprio filho está lá para ela, quem estará?
Estive enquanto pude. Conheci-a melhor e vi as amizades verdadeiras que tem. Vi o que é ter uma amiga de verdade. E ela tem, espero que ela veja. Ela está sozinha mas tem pessoas à sua volta. Espero que veja, e mais, espero que se sinta rodeada de gente.
Agora tenho trabalho e pouco tempo para aproveitar as férias, fui um dia à praia. Nos outros já disse o que aconteceu, nos próximos, tenho de trabalhar. Sinto-me em tempo de trabalho com uma ou outra folga. Pelo menos, vou fazê-las valer a pena, isso vou. Porque daqui a pouco (pouco porque vai passar depressa), tenho de fazer as malas. Desta vez não são para voltar, mas para ir.
Para ir e ser feliz.
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