Ouves as palavras como facas, acumulas e calas. Riem-se das tuas falas, dos teus tiques e manias, das tuas ideias e crenças, de ti. As lágrimas caiem em silêncio e apenas no escuro. Não há alguém ao teu lado que te pergunte como estás querendo saber a resposta a sério. Alcanças as pessoas, elas querem lá saber. Quando tentam saber de ti, desistem. É como se andasses num patamar diferente de todos os outros, sempre um passo a mais ou a menos. Falam-te como fosses idiota. Uma idiota coberta de nevoeiro. Uma alma qualquer que pensa demasiado sobre tudo, que prevê as vidas dos outros, que sabe o que sentem, que sente por eles. Uma idiota que idealiza, que deixou de sonhar ou se esqueceu que sonhos lhe pertencem. Eu, idiota? Uma idiota que acham que tem problemas, depois riem. Riem sem saber que as minhas falhas são ténues reflexos de um todo bem mais problemático. Oiço demais, sei demais e pesa-me demais porque não ouvem de volta, nem tentam fingir que querem saber. É um caminho demasiado solitário. A solidão só é confortável às vezes, não durante uma vida inteira. Abdiquei de todos os refúgios e, mesmo assim, o que me rodeia não cabe em mim.
Eles não ouvem. Eles não ouvem nada do que digo. Deixei de saber falar de mim, porque nunca ninguém ouviu. Deixei de me perceber, de me per sentir. Deixei de me saber ser.
Eles não ouvem. Eles não ouvem nada do que digo. Deixei de saber falar de mim, porque nunca ninguém ouviu. Deixei de me perceber, de me per sentir. Deixei de me saber ser.
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