Meios dias pela noite

Encostada a ferros tapados por um almofada, há palavras que já nem fazem sentido usá-las, são contradições porque não se aplicam ao que vejo e como experiencio. Importo-me, mas não o suficiente, magoa, mas não ao extremo, irrito-me mas não me revolta, quero gritar, chorar, arrancar esta máscara que está que nem pele, que arda, que sangre, mas que me deixe viver! Não há sentido nenhum, não há rumo que possa tomar como estou, como nada. Quis tanto, não sei o que quero agora, restam-me inseguranças atulhadas de vergonha, quero contar a alguém, sem receio de julgamento, sentada na areia a sentir a água gelada despertar-me, contar, sabes?
Há muito que não me sinto eu, que não sinto sequer chego a duvidar que existo, que o que me rodeia é real porque não vejo realmente, não estou possuída, estou o oposto, vazia, como se eu não estivesse dentro de mim, como se me tivesse deixado, opaca, um cinzento a tentar passar-se por cores perante os outros para não estranharem, mas não consigo fingir risos, perco o controlo da postura, torno-me um monte de roupa engelhada esquecida que nunca foi para lavar. Estou como uma casa de porta trancada com quartos vazios cheios de mobílias tapadas por fantasmas, uma casa de quem partiu.
Só queria sentir, sabes?
Algo, nem que fosse dor, provaria que sou real, já sei o porquê mas não consigo desligar este modo automático, ficou preso e eu não sei como desligá-lo, anula todas as minhas intenções e vontades e eu não quero isso! Mas isso anula-me, por mais que eu queira magoar-me ou elevar-me, enche-me os olhos de nevoeiro, prende-me pelo umbigo e faz de mim o que quer, nada. Não é uma proteção e, se é o que tenta ser, é uma merda porque bloqueia tudo o que de bom poderia sentir e deixa-me apenas atrofiar com ansiedade e vergonha e medo, o meu subconsciente é uma merda porque me tornou nisto, não me vale de nada ambicionar porque nem o consigo fazer. Já nem tenho paixões, nem obssessões, nem tormentos se não o meu subconsciente e como eu me livro disso, de uma máscara que foi feita por alguém que habita em mim como se nem existisse? Que atua por meios tão discretos mas tão fatais.

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