Já estava cá
Por mais tempo que tenha passado a acreditar que não tinha lugar neste mundo, nem me adaptava aqui, consigo perceber que ele sempre esteve à espera de me receber, apenas eu não sabia manifestar e impor-me, ainda hoje não sei como o fazer e duvido muito mais do que acredito mas sei que muito do sentir parte do impulso que lhe dou, em mim, aqui. Acho que é o medo que se esconde com esta máscara tão bem colocada, tão bem disfarçado que nem quase o consigo detetar, a insegurança, essa é descarada ao ponto de já não ter vergonha de se assumir perante o mundo, nem consigo filtrá-la ou impedi-la, escapa-me da boca, já se despiu, assumiu o meu corpo, o meu diálogo. Quando falo, não sou eu, são as minhas inseguranças que me fazem crer que são defeitos, são os meus desconfortos que me fazem sentir deslocada em qualquer espaço, quando escrevo, sou eu, sou mesmo eu e não sei definir-me mesmo assim, não sei analisar-me, descontruir-me, perceber de que sou composta, então não me vejo como uma paisagem, apenas como pasto que precisa de água e frescura, renovação. Irónico como pedi tantas vezes para desaparecer daqui e, agora que já não me tento despedir, sinto que fugi do meu corpo, não me sinto na primeira pessoa. Quando estou mal, é físico, talvez para compensar o que não provo emocionalmente. Estar consciente do invisível, do desaparecimento, torna-se mais difícil quebrar o ciclo quando na maioria do tempo nem tenho noção de ser prisioneira desta abstração. Este nada, não veio de repente, cresceu aos poucos, com tudo o que retraí, este foi o resultado, o resultado de tanto tentar fugir da vida que ela fugiu de mim.
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