Às três e num quarto

Acordas da sonolência que não consegues matar, com um dilúvio de culpa e ao som da chuva. As lágrimas caiem nessa almofada amassada, tristeza adormecida e cansada. O teu olhar não vê claro, certo, concreto e os teus lábios pronunciam sussurros discretos mesmo estando a arder para gritarem trovoadas.
Desperta, cansada, sentada na cama de um quarto irreconhecível a esta hora da madrugada. A chuva cai, mas tu não. 

Os relâmpagos explodem e tu com eles também. Ali alguém ou alguns te falam em tom de sabedoria, como dizendo, "eu estou aqui, eu sabia". Eles sabiam e tu também, eles sabem aquilo que em ti vêem, para além do que expões à luz de um dia, eles sabem o que escondes e sabem onde te escondes, acompanham-te e apanham-te desprevenida, relembram-te que a vida é para ser vivida e há mais na vida que uma despedida. Chamam-lhe insónias, eu chamo-lhe coisas não resolvidas, uma mente pesada, é uma mente de noite viva e uma mente livre, tranquila. Chamam-lhe peso na consciência, eu chamo-lhe falta de decência, se pesa é porque a culpa em ti habita. 
Se são planos secundários ou vividos, nunca terás certeza. Se é sobre a parede branca ou a vela que ficou acesa, se é alguém que habita ou em mim se esquece.
Errei quando não falei da minha certeza e menti uma vez com consciência, pois eu sabia que um dia a mentira eu ia revelar verdade juntamente com outras certezas. Tive apenas uma vez na vida insónias e foi por ter um relógio com números vermelhos apontados para o tecto. Isto foi um aparte, para explicar a parte de que nunca perdi o sono, a inconsciência não é para mim abandono mas certeza e a janela, mesmo no Inverno, está aberta e os sonhos escapam por aí e o meu sono, repousa em mim e eu, sou simplesmente assim. A chuva nunca me acordou, nem o rebentar da trovoada, ironicamente, sonhei com o despertador tocar e fui acordada. Tanto há um porquê para noites em claro como para noites raras, porque é à noite que contigo te deparas.


8 de Novembro de 2013

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