As palavras que ficaram à mesa
Clic, clac. O enconsto dos talheres nos pratos pouco fundos. Vozes cheias de silêncio, garfo a garfo, as pernas querem correr para fora dali. Um espaço fisicamente amplo, mas claustrofóbico. Nesta mesa, caíram lágrimas, cuspiram-se gritos, contemplou-se o passado, com muita saudade, com muito remorso. Mas agora, é como uma prisão, em que há regras e limitações, à conta de um centro de mesa que não deveria lá estar. Senta-te aqui, num lugar onde tens de esconder as lágrimas. não só comer mas engolir o orgulho e respeitar quem não te respeita. Falta alguém. O equilíbrio, a paz. Eras tu quem a impunha, nem aquele centro ignorante se conseguia impôr a ti. Eras tanto e eu sem ver isso durante tanto tempo, sem te sentir. A tua qualidade não era chamar à atenção e ser carente, era seres o silêncio no meio da confusão, o recosto, o encosto. Eras aquilo que eu precisava de ser, serena perante agressões infernais e ataques que não me deviam alcançar. Tiveste de ir? Não tinhas, eu tive de te deixar ir, não me deram opções, nesta mesa. Naquela mesa não mandava eu, mas tive de ser eu, atiraram-me essa âncora. Espero que esta casa aprenda mais contigo. Vi-te, ontem, refletido numa cópia quase perfeita. Era para me dizeres que estás por aqui a guardar-me? Obrigada. Nunca senti que amasse alguém, até te deixar ir, ao sofrer enquanto sofrias, gritei de desespero e tu nunca gritaste, nunca, aí percebi. Há vários tipos de amor, mas com a mesma intensidade, agora sei. Pensava que já não iria chorar, depois de vários dias que já passaram desde que tu foste. Onde foste, espero que estejas muito melhor, saudável, confortável, na tua paz.
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