Se há um lugar

Se há um lugar em que podemos entrar e estar juntos, vem comigo.


Numa fábrica abandonada com inúmeras janelas sem vidros, por onde entravam os raios de um sol de verão, com heras que entrelaçavam os parapeitos, o telhado estava meio caído, feixes de luz rompiam pelos sorrateiros espaços escondidos entre as telhas, entrámos. Enquanto eu percorria as paredes ásperas e deterioradas com o toque, tu pisavas os restos caídos daquele edifício, alcançaste o bolso do teu casaco e retiraste de lá aquele lume que te relaxa. Eu repreendi-te com o olhar e acenderam-se verdades inflamáveis.

- Não me tentes mudar. - disseste.
- Apenas quero que estejas bem. - disse eu.
- Mas eu estou bem assim. - retorquíste.
- Mas não vais estar mais se continuares assim. - disse eu.
- Não me chateies, por isso é que... - paraste para inspirar o fumo. - ... posso deixar de querer estar aqui, as outras não me chateavam por isso.
- As outras?! As outras juraram-te amor e traíram-te, as outras não queriam o teu bem, queriam-te para exposição e orgulho. - disse eu. - As outras podiam ser melhores que eu... as outras são, no entanto, nunca estiveram dispostas a fazer-te feliz como eu estou!

Sentaste-te numa janela que estava perto do chão e encarou o exterior enquanto suspirava, saturado. Eu saí do espaço e andei pelo terreno que cercava a fábrica, sem saber por onde, apenas observava ao meu redor para tentar focar-me em algo que não aquilo que eu achava verdade: ele era o melhor para mim, mas eu não era a melhor para ele. Não haveria lugar distante do mundo que nos proporcionasse uma possibilidade, ter vindo até aqui, era apenas a prova disso, o problema não era o sítio, o problema era ser eu apenas a querer ter alguém que não me vê da mesma maneira. 
A tarde envelhecia, as árvores dançavam ao ritmo da brisa, sentei-me encostada a uma árvore, fechei os olhos e abstraí-me da realidade que me abraçava, imaginei que ouvia ondas rebentarem suavemente numa costa, deixei-me absorver por isso. A brisa fresca despertou-me, apercebendo-me da realidade, levantei-me e comecei a caminhar de volta ao sítio. Caminhava abatida pelo peso da realidade que tinha que encarar, estava na altura de desistir e de deixar de tentar encontrar um plano em que fosse possível ser feliz. A fábrica estava escura, a tarde tinha tornado-se noite, eu não o avistava. Ele devia ter ido embora entretanto. De repente, senti alguém agarrar-me e instintivamente reagi, afastando-me, encarando:

- Pensava que te tinha perdido...! - disseste. - Não me assustes assim outra vez.
- Eu pensava que te tinhas ido embora... - disse eu.
- Eu fui à tua procura! - tiraste o casaco e colocaste-o sobre mim. - Deves estar com frio.
- Porque te preocupas? - perguntei. - Pensava que te era indiferente.
- Eu pensava que eras... - envolveste-me num abraço - Sabes quando vestes uma blusa várias vezes que deixas de notar porque a vestes? Apenas se tornou um hábito, mas quando a perdes ou se estraga, ficas revoltado porque percebes porque a vestias. Eu gosto de ti.
- Espero que não me torne um hábito outra vez... porque vai magoar muito mais se te cansares de mim depois de ter dito isso. - disse eu.
- Desculpa ter despertado tarde para quem eras, eu não vou mais adormecer, prometo.
- Não prometas.
- Se eu não estivesse a ser honesto, nem dizia nada.
- Dizes isso tudo agora, mas no fim...

Com um beijo, terminaste a frase e o medo que eu sentia, provando a verdade.


Se há um lugar onde podemos ser, estaremos juntos em qualquer realidade.

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