Perdi-te?

Se te perdi? Sim, não, não sei. Nunca te tive como meu, logo nunca te perdi, mas nunca te tive, então sempre estiveste perdido de mim. «Porquê?» é uma palavra em questão que carrega tantas respostas e alternativas. Porque nunca te esqueci? Se nunca me alcançaste, se nunca fomos um nós, se nunca fomos amigos, se nunca fomos conhecidos, se nunca fomos amor, se nunca estivemos perdidos... facto é, que quando eu soube de ti, tu soubeste de mim. Pensei por um ano, que me reconhecesses e, por isso, a humilhação tomava conta de mim cada vez que te encontrava, mas apesar disso, sentia o mesmo apego.
Se te sonhei? Nunca te imaginei, nunca defini a pessoa que queria, simplesmente foste uma sugestão num aglomerado de possibilidades, assim que te avistei, algo brilhou contrastando com os vultos que por ti passavam. Não vou ser insegura agora, porque posso afirmar com certeza que pelo menos uma vez avistaste esse mesmo brilho em mim, mas eu, ofusquei-te ou apaguei-me de vez quando fui tomada por um mar de inseguranças. Tu foste uma realidade na minha vida, por breves e escassos momentos, mas momentos suficientes para me marcarem e nunca me deixarem sarar até hoje.
Que maré é esta? Que me mantém insegura, que me carrega como alguém não suficiente para ser tua, mas me leva sempre até ti, voluntariamente e involuntariamente? Que destino nos calhou? Ou que destino me calhou? Que fio é este que me liga sempre a ti? Nunca me foste indiferente, mas admitir isso, é humilhar-me perante a sociedade e, humilhação, já eu sofri por ti. Qual é a coisa qual é ela que faz com que, cada vez que me esqueço, me lembre de ti? É o fado? Isso existe? Eu sei que parte deste apego, eu alimentei-o, mas como eu deixei de sentir por quem já senti, porque não deixei de sentir por ti?
Eu estou a falar para ti, mas devia falar também com este destino. O que queres de mim com esta pessoa? Que está longe para ser lembrança mas perto o suficiente para estar à vista.
Há algo que acho que sei, no dia em que não mais te sentir, alguém vai surgir e vai ser tão mais brilhante, tão mais marcante e será real e será amor ambíguo.
Quando me vês, lembraste de mim? Quem me dera que não soubesses, para que não notasses que mudei, para que não soubesses quem eu sou, só aí talvez, haveria uma possibilidade de seres essa pessoa pré-destinada. Eu limito-me a assistir da minha estrada a tua auto-estrada, observo os teus choques, quedas, feridas e repetições, enquanto me questiono se estarás preso a essa sina como eu estou presa à de sentir sempre por ti.
Como é que não tens culpa de nada e me magoas tanto? Sinto arranhar no meu peito cada vez que te vejo sorrir de amor, sinto arranhar quando te vejo sofrer, queria poder consolar-te, porém tu estás numa sina como eu estou na minha, como fôssemos amaldiçoados. Serei a culpada? Se te esquecer de vez, se te anular do meu sentimento, poderás ser feliz? Poderei ser feliz? Poderemos ser felizes, cada um na sua estrada? Ou quero o destino que algures, as nossas sinas choquem e sigamos o mesmo caminho? Mas como é que te esqueço, se ninguém controla o que sente e se depois de tanto tempo, eu não te esqueci?

Perdi-te? Ainda te tenho cá dentro do meu sentir.
Perdeste-me? Estou sempre na margem à espera de te ver sorrir de amor por mim.
Tens grande parte da minha vulnerabilidade nas tuas mãos e nem tens a noção disso, é um perigo para mim, pois cada gesto teu, é geralmente uma ferida minha.
Estaremos ambos a segurar neste fio? Não acredito. - digo eu, insegura.

A única associação que fazes cada vez que me vês é:
- A miúda que me elogiou à chuva. A miúda que não me confrontou. A miúda que fugiu. A miúda estranha.

Eu não te elogiei à chuva, eu insultei a chuva com um elogio:
- Que sorte... que giro! - disse eu sorrindo e olhando em frente, deparando-me com os teus olhos brilhando de confiança.

Não era para ti, mas se podia ter sido...! A única vez que o teu sorrido me foi dirigido! E foi um engano!

A minha insegurança sabe que nunca serás alguém na minha realidade. A minha realidade deseja perder-te de memória, eu desejo que cada vez que te vir, sejas um rosto desconhecido, que te tornes num daqueles vultos que passava por ti naquela tarde apática de outono.

A verdade que te diria se me falasses?
Estou farta de ficar presa a pessoas que apenas gostam de mim inicialmente e depois me desprezam, estou farta de ficar magoada, eu quero alguém que me ame com duração, realmente. Não sejas o meu para sempre, desfaz-te em esquecimento. Eu sei que estou diferente de aparência, perdi o brilho daquele outono que tinha na pele, esta figura já não é mais esbelta, mas eu sofri depois desse outono, sofri tantos outros e durante esses, não por ti, sofri mesmo de não querer viver e doeu tanto, mas hoje eu aprendi como ser feliz, ainda tenho aquela miúda em mim, mas agora amadureci, tenho consciência da vida e estou pronta a amar alguém que me ame. Por vezes, ainda dói tanto e aquele arranhar no peito piora esse todo mundo do sentir, por vezes a causa desse arranhar é tão ridícula que me faz sorrir, por mais que me custe sentir-te, quando mais me custou viver, escapava por aí.

Não sei como concluir, ainda não sei a resposta, eu quero esquecer-te, mas na possibilidade de me quereres ter, eu ainda sinto.

Sinto muito, sinto tanto.

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