Distante estão as noites em que eu ansiava ver aquela série que saía à sexta, esperava todas as semanas, fazia o pedido indireto daquela comida de plástico e gelado para acompanhar. Quando o pedido não vinha, a noite perdia o significado, quando tinha a comida, enchia-me demasiado, quando via a série, passava-a sempre à frente um bocado, quando não saía o episódio novo, a noite perdia o significado... ou eu achava. Recordo essas noites com uma memória traiçoeira, que tenta a todo o momento distorcer essas memórias, fazendo-as parecer que foram felizes e agradáveis, mas a sexta não tinha significado, era apenas o dia em que eu podia fugir de tudo, ignorar o caos mais próximo, colocar os fones, sentar-me e alimentar o meu ódio. Na altura, o caos não me rodeava, eu era o caos e projetava-o à minha volta, as noites acabavam com a textura suave das almofadas, os dias multiplicavam os amargos e eu, ficava ali, mantendo a mesma rotina, fugindo à realidade por meios que apenas me faziam sentir pior, na altura... a minha esperança não era minha, bani essa palavra do contexto das possibilidades, não havia chama, era apenas eu no vazio do meu corpo, no peso das minhas pálpebras, no estômago que se expandia de veneno, o sangue que corria demasiado doce, à procura do amor que não encontrou nunca lá fora, lá dentro, eu não era eu, não era nada, preferia assim, assumi que seria para sempre sonâmbola e prisioneira de mim própria.
Hoje, eu piso uma realidade que nunca acreditei ser possível e estou aqui, mas ainda não acredito estar e estou melhor, mas ainda rasteja em mim aquele veneno que me assombra, que me sussurra à noite o quão sozinha estou, os outros não se importam, não perguntam por mim, falam sobre eles sem o mínimo interesse de me ouvir, o que me assusta mais, é que o veneno é a minha voz, sangue do meu sistema, criado por mim e dizer que estou bem é mentir, porque quando eu deixei de pensar que poderia chorar, rendi-me, porque não é o chão que piso, a divisão longe de casa que me afeta assim, é não sentir que tenho uma rede que me ampare se eu precisar de cair, lá ou cá, não sei onde depositar o meu conforto, quem eu sou, não sentir que tenho pessoas seguras que me segurem. Acho que deveria estar muito mais feliz, mas a realidade pesa tanto e cada vez que penso que já posso voar percebo que tenho os pés amarrados chão, é inevitável não me comparar e o eu de agora, esperava já por esta altura não ter de se sentir assim, acho que conheço bem demais a solidão e isolei-me muito tempo por receio, mas já não o tenho e passei a dar muito mais de mim, a revelar muito mais, mas então, parece que nem assim resultou e apesar de já não ser quem fui, ainda não sei quem sou.

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