Medíocre

Antecipava um momento de quase esplendor, atrás da imaginação já se escondia a insegurança, à espera de uma racha por onde sair. Em cada passo acentuava-se essa pastilha que nunca me larga, "há melhores", "nunca vou chegar a um patamardecente", e tantas mais que nem por pensamentos coesos se expressavam, faziam-se sentir. O trânsito, as pessoas, o espaço, a falta de espaço para os carros, as horas, as pessoas, o corpo, a cara... a porta, a entrada, as escadas, a sala de espera, a chegada. A minha criação encontrava-se ao lado da porta, à direita, de costas para quem entrasse, tal como eu esperava, refletia exatamente aquilo que eu achava do que faço, não é digno, não é bom, não interessa a ninguém, não causa impacto, não deslumbra, apenas fica, imóvel, protegida por uma moldura que não se quer ajustar, é diferente das outras, não porque se destaca, porque é indiferente, desprezível e é apenas isso. A verdade é que o nível que eu apresento está entre níveis mais avançados, mas até se eu pertencesse a um grupo de indivíduos com o grau esperado, eu não teria esse nível normal. Eu senti-me tão feliz pelos outros, a cada olhar que eu projetava nas obras, eu recebia vislumbres de sucesso, eu sei que vão caminhar até onde anseiam, mesmo aqueles que se afirmam inseguros, eles vão chegar onde querem, porque mesmo inseguros, continuam a criar e a partilhar o que criam. Eu só queria um pouco mais de jeito, para me atirar deste patamar aceitável, indiferente, mediano. A exposição estava cheia de paixões e de sonhos e de caminhos traçados e eu, deslocada, feliz por eles, triste por mim e, ouvir falar os professores e pessoas envolvidas, só reforçou isso. Estou grata pela honestidade, prefiro isso do que falsidade que pareça bem. As palavras eram apenas aquilo que eu esperava, o reforço de que muito talento enchia a sala. E outro nem tanto, que apenas ocupava espaço e, de todos, o único que ocupava espaço, era o meu. E quase chorei, não planeava, nunca pensei que fosse possível (eu choro pouco), foi inesperado, acho que quase foi porque toda essa insegurança e angústia quis sair de mim, quis ser transformada em talento, não sei. Neste momento, sinto tudo isto a dançar por baixo do meu peito, maus sentimentos a quererem ser vertidos em água e pensamentos que querem ser consolados e eu a querer ser abraçada por um cenário do futuro que me prove que vou conseguir, que vou apaixonar-me por um modo de criar, que vou amar criações diariamente e partilhá-las com um orgulho humilde. As pessoas que carregam em si dons reconhecidos não entendem porque nunca sentiram, ser alguém que não consegue reconhecer um só talento apenas, é viver sem rumo e sem uma vontade, elas podem amar mesmo perante frustração, não percebem que o único sentimento que partilhamos é a frustração, porque o dom eu não o tenho ou não sei se o tenho. E eu quero chorar tudo isto, mas a jarra não é derrubada, apenas está cheia demais, apenas escorre o excesso e eu sinto-me apenas cheia de insucesso. A chuva é ácida, queima-me por dentro, apenas chove aqui, aqui, onde amo, aqui onde me magoo, aqui onde se acumulam todas as lágrimas que não choro.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Linha correspondente

Sê, É