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Quando as persianas se fecham, eu continuo acordada. Afasto o cobertor, fico sentada. Ligo-me àquilo e fico ali, imóvel, apática, aparte do mundo que passa lá fora, ignorando o tempo que passa, arranha, se torna noite. Eu sou aquilo que construí ontem, Eu sou quem eu escolhi ser, Eu sou o reflexo do passado, Eu... eu ainda sou quem não quero ser. Daqui eu não vejo a estrada, não vejo árvores, não vejo vida. Daqui... eu não me vejo ao espelho, mas o meu reflexo continua a ser construído. Ainda estou aqui! Ainda estou sentada e a vida passa, eu sei que passa, e eles esperam que eu me levante, esperam que apresente projetos do futuro, que aparente trabalho e espelhe o que nunca conseguiram alcançar. Eu sei as regras, as expectativas, os truques, as dicas, as dietas, as maneiras, eu sei a teoria, mas não sei a minha, não sei de mim, não sei do que gosto, de quem gosto, qual é o meu maior gosto, se tenho talento, qual é? se não tenho, qual é o propósito? quem sou para os outros? gostam? porquê? e porque nasci? porque sou assim? porque perdi tempo, porque não me lembro, porque magoa, porque me esqueço, porque errei, porque erro, porque sei, porque ainda estou aqui? sentada.

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