Aqui
O que há de bom aqui?
Aqui eu tenho uma liberdade restrita por mim, se eu quiser destruir-me, posso fazê-lo, se quiser fazer barulho, posso gritar, se escolher não fazer nada, não faço. Aqui eu tenho responsabilidades que posso não cumprir e isso não me afectar fatalmente. Aqui o tempo passa rápido quando não é aproveitado e torna-se fatiga se for usado, aqui eu tenho um lugar na cama e uma cadeira que não uso para me sentar, uma secretária que não uso para estudar, uma guitarra que não sei dominar, roupa que não quero, coisas que tenho medo de deitar fora, folhas de linhas soltas, cadernos velhos e uma janela com paisagem urbana. Aqui os meus sonhos continuam a dormir quando eu acordo, quando eu adormeço eles decidem fazer teatros, mascararem-se de outros sonhos com diferentes significados. O tempo cai nas minhas mãos e eu deixo-o escorrer como faria com gostas de chuva, há dias em que a energia me atinge como uma seta certeira, mas são dias que ocorrem de tempos a tempos, são como uma seta que acerta só por sorte. Os calendários são riscados nos primeiros dias de cada mês, como se estivesse a fazer a contagem decrescente para o próximo dia, à espera de ganhar mais tempo para desperdiçar. Tudo o que referi, não parece assim tão bom como indiquei, eu vejo o bom em poder errar tudo aqui, posso testar teorias, destruir, criar, estragar, recriar, desperdiçar, amar, desvanecer, chorar. Aqui posso ser o que tenho vergonha de mostrar ou admitir perante o mundo, fora deste cubo deformado, às vezes sinto que se fosse o que sou aqui, não seria nada aos olhos dos outros, porque eles agarram no tempo e dão-lhe utilidade e eu vejo o tempo cair nas minhas palmas e deixo-o escorrer. Aqui eu limito-me a não fazer quase nada e deixo isso levar-me ao limite, quando lá chego, regresso devagar ou viro noutra direção.
O que há de bom aqui é um refúgio do mundo e é um refúgio tão bom que me seduz a estar aqui a maioria do tempo.
Aqui eu tenho uma liberdade restrita por mim, se eu quiser destruir-me, posso fazê-lo, se quiser fazer barulho, posso gritar, se escolher não fazer nada, não faço. Aqui eu tenho responsabilidades que posso não cumprir e isso não me afectar fatalmente. Aqui o tempo passa rápido quando não é aproveitado e torna-se fatiga se for usado, aqui eu tenho um lugar na cama e uma cadeira que não uso para me sentar, uma secretária que não uso para estudar, uma guitarra que não sei dominar, roupa que não quero, coisas que tenho medo de deitar fora, folhas de linhas soltas, cadernos velhos e uma janela com paisagem urbana. Aqui os meus sonhos continuam a dormir quando eu acordo, quando eu adormeço eles decidem fazer teatros, mascararem-se de outros sonhos com diferentes significados. O tempo cai nas minhas mãos e eu deixo-o escorrer como faria com gostas de chuva, há dias em que a energia me atinge como uma seta certeira, mas são dias que ocorrem de tempos a tempos, são como uma seta que acerta só por sorte. Os calendários são riscados nos primeiros dias de cada mês, como se estivesse a fazer a contagem decrescente para o próximo dia, à espera de ganhar mais tempo para desperdiçar. Tudo o que referi, não parece assim tão bom como indiquei, eu vejo o bom em poder errar tudo aqui, posso testar teorias, destruir, criar, estragar, recriar, desperdiçar, amar, desvanecer, chorar. Aqui posso ser o que tenho vergonha de mostrar ou admitir perante o mundo, fora deste cubo deformado, às vezes sinto que se fosse o que sou aqui, não seria nada aos olhos dos outros, porque eles agarram no tempo e dão-lhe utilidade e eu vejo o tempo cair nas minhas palmas e deixo-o escorrer. Aqui eu limito-me a não fazer quase nada e deixo isso levar-me ao limite, quando lá chego, regresso devagar ou viro noutra direção.
O que há de bom aqui é um refúgio do mundo e é um refúgio tão bom que me seduz a estar aqui a maioria do tempo.
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