Entre a Vista: Como seria o...?
- Teria de ser majestoso, imponente, imparável, crescente, intenso. Tudo o que nunca foi, e sempre mais. O começo, esse aí, teria de ser como papel antes de ser tirado da embalagem, o mais intocável e puro possível. Espera, risca isso. Teria de ser raíz, o ponto de partida mais puro, mais susceptível, mais sensível. O menos visível é o mais autêntico, por isso, teria de partir daí, o deslumbramento teria de começar lá e continuar aí. O presente é sedento, nunca bebeu de uma fonte, sempre foi das garrafas de plástico, que se amachucam assim que ficam vazias, depois vão fora, são recicladas, para saciarem outros. Se fosse da fonte, quando acabasse, acabava de vez, dali não floresceria mais, para ninguém. Gosto disso, da crueza dos humanos, que deixa transparente as fraquezas, os segredos expostos, e que são, de alguma forma, partilhados. Percebi isso quando alguém se demonstrou assim, inicialmente estranhei bastante. Espera, lembrei-me agora, daí nunca ouvi um “olá, tudo bem?” e isso diz muito, a inexistência daqueles típicos diálogos e a passagem logo para o, “sou assim”. Mais disso, mais pessoas assim por favor, de mim, ganhariam tanto se fossem mais assim, se fossem assim.
Mas eu não estou aqui para mudar ninguém, e sei que as minhas palavras aconchegam muita gente, mas não quero mais aquecer alguém que, assim que se sinta quente, corra para outra fonte de calor. Também tenho frio, também tenho raízes fracas, raízes velhas, profundas e, expostas, são poucas, são escassas. Está frio e quero mais que o sol como fonte de calor.
- Obrigado.
- Não é nada, de nada.
- Obrigado.
- Não é nada, de nada.
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