Irreal
Mordo os meus lábios enquanto troco olhares de relance com a dor, afasto depois o olhar e tento trancar o choro. As vezes que o fiz notam-se pela quantidade de cortes e peles que tenho nos lábios, pelas semi luas cavadas por baixo dos meus olhos, a forma como estou pálida perante quase tudo, guardei demais, interiorizei tanto de quase tudo que me perdi cá dentro, os meus olhos não me pertencem, vejo perante várias lentes que encobrem o que está à frente deles. A falta de gosto por mim revela-se em cravos, em estrias ainda não esbranquiçadas, na celulite que se acumula, demasiado cedo para uma menina da minha idade - dizem-me. Tentava sentir algo de bom através da comida, comia até ficar enjoada, cheguei a ficar doente desses ciclos constantes, acumulava-se a gordura saturada de repugnância. Horas replicadas diariamente em frente a um ecrã ignorando as janelas, as portas, o sol... quando o via tinha de arrancar tudo o que me cobria, para não se ver quando tivesse descoberto, à conta disso, as marcas, as manchas. Posso afirmar que não sou uma tela em branco, gostaria de poder dizer que tenho marcas bonitas e das quais me orgulho, não consigo, não acredito que o sejam, sinto-me pior por as ter, as mágoas que se entalaram nos meus ouvidos ressoam ainda, foram suplemento de quase todas as minhas inseguranças, se não totalmente. Estou mais perto de me sentir bem do que mal, mas este entrave de me olhar ao espelho e não me sentir eu, andar e não sentir o relevo da calçada, rir e não saborear o momento, tudo tão fugaz, nublado e irreal. Quero sentir que me pertenço, quero mesmo pertencer-me, sentir que estou cá dentro e, no exterior, presente.
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