Até amanhã "ursinho"

Conhecer alguém tão bem e ver os seus olhos já sem o brilho, baços, cansados e quase fechados deixa-me um ardor cá dentro...
Já não me lembro do primeiro dia em que te recebi em casa, mas lembro-me de ser pequena e ignorante e chatear-te e tu nunca te assanhares comigo, pegar num atacador velho e encorajar-te a brincar, correr atrás de ti na brincadeira para depois te mimar. A forma como as tuas pupilas se dilatam quando algo te cativa a atenção, aquele miar doce e meio desesperado por um bocadinho de comida. Noites frias em que saltavas para a minha cama para ires enroscar-te debaixo das lençóis, deixares-me na posição mais desconfortável e picares-me com as unhas quando me tentava mexer, adormecer a ouvir o teu ronronar ou aquela vez em que estava a chorar e ficaste comigo até adormecer. Sei que te chateei muito, mas arrependo-me mais de, agora que estou longe, chegar cansada a casa e não ter tanta disponibilidade para ti, ceder ao teu mano mais novo porque é mais mimoso para mim, saber que estás agora sozinho e não poder estar aí, devias estar agora comigo e quando hoje chorar até dormir. Sempre soube que todos nós temos um fim, mas nunca gostei de pensar nisso, hoje esse pensamento atirou-se a mim e não me deixa ter a cara apática de quase sempre. Ainda estás, ainda és como um irmão nesta minha família desfuncional, és o meu ursinho como te chamo (apesar de não seres esse animal), até amanhã e espero ver os teus olhos ganharem brilho.

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