Momentos Fictícios

Ei, gosto do teu olhar, do brilho que parece cruzar-se com o horizonte quando o sol nasce, gosto quando sorris de vergonha e deixas-te ser vulnerável. Gostei quando nos sentámos à beira mar de madrugada, ainda embebidos naquela noite de excessos, enquanto desvanecia a dor de cabeça, as palavras despiam-se e refletiam-se nas ondas que morriam aos nossos pés. Por sabermos que iriam ser levadas pela maré, dissémos tudo sem hesitar, disse-te que queria voltar a ver-te, disseste que podias não ter tempo, não tive medo de me deixar parecer apegar, assim, entrelacei-me nos teus braços, fechei os olhos e esperei que me afastasses, como um teste, contei um, dois, três... dez segundos, estava ainda coberta pelo teu abraço, abri os olhos com medo, como quem receia o impacto da claridade depois de um longo momento de escuridão, olhei ligeiramente para cima e deparei-me com a claridade que não incomodava nunca, o teu sorriso, e o sentir do teu beijo poisar na minha testa. Imaginara tantos cenários para um amor que iria ter, parecia apenas mais um desses, tinha medo de me iludir com estes sentimentos, porque foram tantas vezes unilaterais. Eu volto, disseste enquanto apertaste esse abraço, a minha confiança nasceu aí e pela primeira vez, sem receio, senti.

In, Momentos Fictícios I

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