Foi só uma paragem
Acordar, e agradecer. Apesar de tudo, e devido a tudo, estou aqui.
A meio do caminho para o próximo capítulo.
Sei que tenho tudo para estar bem, mas não tenho o que preciso para ser feliz.
Talvez tenha sido um erro atirar-me para o mundo sem estar equilibrada, mas já tinha deixado de viver há meses para continuar tantos outros assim. Conheci um outro lado, uma outra maneira de outro ser que não sabia existir. Que há quem me abrace sem me sufocar, que me fale sem denunciar, que não me consuma o que sou, que tenha a calma de uma manhã de sábado. E por isso só, talvez tenha valido. Para me fazer crer que nem todas as pessoas são como aquelas que me magoaram e ainda hoje me magoam. Que há um lado de fora, fora deste avesso cá dentro, que não me quer roubar o brilho, apenas ver-me brilhar. Que não é só a tempestade dentro destas paredes, que essa sim assusta, e corrói, e polui-me. Se eu confiar mais no mundo, ele vai revelar-se. Eu sei que o mundo nunca magoará tanto quanto esta casa me magoou. O que não entendo, é porque me revela tantas pessoas temporárias. São as amizades para a vida, que ficaram distantes. São as conexões com química que ficam a meio do caminho. E eu, não espero mais por ninguém, então continuo a andar.
Já fez mais de três anos que estive na Alemanha, que foi o despertar de um novo ciclo, foi também fugir do caos, mas foi o que me fez estar onde estou hoje. E valeu tudo. Agora, um novo ciclo quer manifestar-se, e não para fugir, mas para ir sem volta. E está mais claro que nunca, que não há nada nem ninguém que me faça ficar aqui. Nunca foi um caminho, eu sabia, foi um retrocesso.
Se soubesse o que sei hoje, depois deste mês, tinha feito o mesmo. Mas com menos suspense. Em menos tempo. Engraçado como nunca dou por nada ao início, estava cética, a pensar que nunca ia resultar. E, do nada, instala-se aquele sentimento que planeia todo um filme. Mas é só isso, sempre só isso, um filme, fictício. Mas a cética tinha razão, não resultou nada, o que não esperava era acabar a sentir.
Mas, ao menos, sei que ainda há um lugar em mim que sente. Que uma luz acesa.
Está na hora de deixar ir. De levantar-me, receber um novo dia, calçar-me e sair.
Foi só uma paragem.
Continuo.
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