Enquanto o tempo escorre pelos dedos, pelos raios de sol que fogem das paredes, é fácil perder a noção do sentido de ser. Quando se vêem as mesmas paredes de dentro, as mesmas pessoas da semana, quando o círculo é restrito e o cerco aperta, é fácil que toda a energia seja consumida pela rotina e pelas obrigações porque não deixam espaço para refletir sobre esta núvem que páira. Às vezes, é mais fácil não pensar porque não se corre o risco de escorregar na espiral que leva ao fundo, e consome sem regra nem previsão.
Esta semana, nem à música tenho prestado atenção. Refugiei-me automaticamente na rotina. Percebi agora que, por vezes, ao tentar controlar não sentir algo em específico, deixo de procurar o que naturalmente me faz sentir, e deixo de sentir de todo, e tudo. Esta semana senti apenas o corpo; senti cansaço, sono, fraqueza, enjoo, senti o sol quente abraçar-me a pele, senti o calor das mantas, senti o frio que guarda a sombra, o corpo a ressentir a falta de treino, senti a coluna a perder o norte.
O difícil de cair na espiral, é ter de voltar a subi-la, e desta vez, sem balanço. Subir é de garras e de atrito nas plantas, é aprender a não perder a oportunidade mas também a não parar onde não é ponto de aprendizagem.
Nestes últimos meses, decorei um quarto simples, em tons neutros. Para que, no meio do caos que habita em casa, e no meio do caos da mente, quando abrir os olhos veja a paz que me esqueci de acender cá dentro.
Muito me têm dito que penso demasiado. Mas se assim não o fosse, não teria as palavras.
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