Apostas para o Futuro

 É hora de almoço, e escrevo fora do chão.

Trabalho numa área gráfica, mas a minha visão é sentimental. Então esta não é uma previsão visual e literal do futuro, é o que sinto saber do rumo a que nos leva este ritmo.

Mais de meio ano depois do começo desta loucura viral, fomos todos desafiados a repensar hábitos e relações. A luz clínica, dura e fria, incidiu sobre o melhor e o pior das nossas vidas. Obrigou a passar um pente fino em tudo, e a largar o que não poderíamos trazer para esta realidade. Passámos a dar o devido valor às pessoas e ao que sentimos, mais do que as coisas, do quanto trabalhamos, e nos falta tempo. Pessoalmente, nunca me fez tanta falta o convívio que tinha reconquistado. Percebi o quanto é importante estar e partilhar momentos, é algo que dá sentido às rotinas por cativar a vontade de as quebrar para fugirmmos ao mesmo tempo. São as piadas que surgem no momento, as conversas sem rumo e sem nexo. Foi tentar aplicar o que as amizades à distância me obrigaram a aprender, de que o valor não está na quantidade de vezes que estamos juntos, mas na qualidade de cada momento, até mesmo aqueles que só partilhamos por chamada.

Muitos desistiram das máscaras, de suportar as fachadas que está sempre tudo bem e em andamento. E quanto mais cedo as deixarmos cair, mas tempo teremos de reconstruir quem somos.

Este impacto foi para todos, caímos em sintonia. Não vai ficar tudo bem, pelo menos, não num amanhã próximo. E está tudo bem se sentirem o vosso mundo a desabar, se sentirem a vida a escorrer desalmadamente. É uma fase de transformação, de despir camadas velhas que não servem, até descobrir novas.

Sabem o que nos resta? O que nos salva? O que nos faz respirar?

A verdade. Crua, arrasada, ainda morna, a reaprender a caminhar.

A publicidade já o tenta fazer, ainda a meio caminho, mas lá vai chegar. E não só aí, mas em todas as áreas que nos rodeiam. A melhor comunicação, é a que comunica com verdade.

Do que mais nos aproxima uns dos outros, é mostrarmo-nos do avesso. Quando o que consideramos íntimo, conhece o outro, floresce a união, e a força. É o saber de que não estamos sós, por mais que pisemos caminhos tão diferentes. O que nos une é sentir.


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