Marés de boa fé

E agora chamo casa a vários cantos, a todos que me acolhem com momentos aconchegantes
O retalho ao pé do mar poisado esteve cá sempre, mas a névoa e as tempestades que se revoltavam cá dentro não me permitiam vê-lo,
que este retalho era o canto mais terno e apaixonante

Hoje poiso-lhe o olhar e vejo para além da silhueta, não se demove pelo sopro insistente do vento,
é um pano precioso bordado ponto a ponto com amor por um plano maior, com a dedicação de olhos colados na agulha e lábios que beijam os pontos falhados que calharam em dedos, que deixaram de lado o dedal e se entregaram a sentir tudo o que fizessem,
Retalho bordado que apesar da dor estende a mão, flete um sorriso de rugas nos olhos, e ama com tudo o que é

Tive de ir para fora, adoptar o desconhecido como familiar,
dormi sonos profundos em camas de quartos vagabundos,
aprendi a confiar no mundo e que o vazio de um espaço, não corresponde à falta de conteúdo
Encostaram-me à parede para me beijar e também para me cortarem,
e agora sou a mesma essencialmente, mas passei a aceitar a solidão como apenas uma camada interior, que tem mais para me causar que dor
Cada vez mais consigo olhá-la nos olhos, e cada vez que levanto as pestanas, retribui-me com um sorriso mais carinhoso

Andei sozinha por aqui, visitei o que quis ver, deixei que os planos inclinados, ruelas, becos, panorâmicas e caminhos errados me preenchessem e cativassem paixão,
desci e fui até ao mar, que mal nunca me fez senão curar

Estas são as marés que devo navegar, vale a pena respirar
e se eu não fizer falta aos outros, faço falta a mim para continuar

a descobrir
a aprender
e a amar

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