Momentos Fictícios 2
Ele dormia, respirava como se a cidade ainda estivesse sobre o olhar presente da lua, o dia ia quase a meio, carros arranhavam o alcatrão, urgências lançavam-se para socorrer, gritos, discussões, música excessivamente alta, ele expirava pacificamente como se nada houvesse por fazer, como se estivesse de férias, como se nada o preocupasse. Instintivamente, toquei no seu rosto, tentei sentir como era, sentir-se tão pacífico, apático ao caos. Todo este tempo me questionei como o fazia, até que ele lentamente despertou, levantou o olhar e notou a minha presença, sem felicidade, sem desilusão, acho que deixei transparecer todo o caos que ele me causava, ele revoltava toda a minha pouca estabilidade, deixava-me irracional, sensível, desarmada. Aí percebi como ele vivia tão sereno, escolhera-me por lhe ser indiferente, um mero acessório, não o desafiava, não lhe causava raiva nem ódio, eu era apenas alguém, ali ao seu lado. Tudo o que ele gostava significativamente, despertava-o, atiçava-lhe o espírito e libertava-o com energia, com os amigos, com o propósito que escolheu viver. Eu equilibrava-o entre o bom e o mau, era neutra, sendo apenas isso, como poderia ele ser para mim um porto seguro? Ele não iria preocupar-se em ajudar-me a estabilizar pois ele recarregava as energias no que eu sentia por ele, descansava a meu lado para depois voltar ao caos que o apaixonava. Enquanto ele dormia, eu estava acordada, enquanto eu dormia ele despertava no mundo para o mundo. Reuni todo o pouco controlo que me restava, retraí as lágrimas e sorri, ele retribuiu, o olhar dele transparecia todo o conforto que ele sentia, virou-se de costas e voltou a adormecer. Talvez ele não soubesse o impacto que causava em mim, talvez ele soubesse e ignorava-o para me continuar cativa como o seu conforto. Deixei estilhaços de mim na almofada, afastei-me do caos e dirigi para o conforto isolado que criara outrora em casa. Talvez tenha ficado com ele na esperança de um dia ele acordar e abraçar-me com medo de me perder ou talvez eu tenha fingido bem demais ser despreocupada para reunir o mínimo afecto. Perdi-me em alguém que nunca sequer quis uma parte de mim, resta-me reunir-me, restabelecer-me e nunca permanecer ao lado de alguém que não desperta com a minha presença. Não sei o que me fez ficar acordada, nem sei porque senti que acordei quando o conheci, apenas vi a paixão com que ele se revelava, quis que ele se entregasse da mesma forma quando éramos só os dois. Fui só eu.
In, Momentos Fictícios II
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