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Na casa da aldeia, eu tenho medo de dormir sozinha, num quarto rodeado de nada citadino, assusta-me não ter vizinhos, residências ao lado, rodeado de terrenos, vegetação e animais sem dono. No prédio da cidade, eu tenho receio de piorar, ambiente preenchido de palavras aguçadas, temperamentos instáveis, luzes falíveis, espelhos errantes, janelas com vista para prédios, persianas a mais de meio, paredes com muitas coisas que não me trazem nada. Tenho medo de dormir na aldeia sozinha, mas tenho receio de estar acompanhada em casa. Não sou mais no campo do que sou aqui, mas sou eu, sem ataques, num ambiente em que posso ser o que quiser, ser eu sem ter receio de me atacarem por isso, sozinha, sorriu, riu, canto e durmo, mas acordo feliz, um dia até acordei a rir. Aqui, não riu quase nunca, não me sinto acordada quando estou, dormir é uma necessidade, acordar, não tenho vontade, estar aqui, não quero, não quero ter de me esconder num quarto com persianas quase baixas, debaixo de uma luz fraca e um roupeiro cheio, pisar madeira escura, poisar livros numa escrivaninha cansada, ver paredes com bordas brancas a que quererem ser iluminadas.
Porque tenho medo do campo? Porque os sons que oiço à noite podem ser fantasmas? Porque não sei que sons oiço. Aqui sei que sons são, os gritos da minha mãe, os gritos do outro, os ataques de todos, os carros, o café lá em baixo, bêbedos, grupos que falam alto sem fazer nada, alarmes... lá, é tudo natural, por isso eu oiço tudo, tudo o que oiço pode ser qualquer coisa, por isso lá parece-me ouvir o outro mundo, mas mais que tudo, além dos medos sensoriais, lá eu oiço-me e oiço tudo o que sou, não há nada que me permita escapar da realidade, do que me rodeia, do honesto, do natural, da vida e acho que isso me assusta, quando passei quase toda a minha vida a viver numa prisão da qual tenho chave, mas rodeada de constantes ataques.
Lá, não sou mais do que sou, mas sou eu mesma.
Porque tenho medo do campo? Porque os sons que oiço à noite podem ser fantasmas? Porque não sei que sons oiço. Aqui sei que sons são, os gritos da minha mãe, os gritos do outro, os ataques de todos, os carros, o café lá em baixo, bêbedos, grupos que falam alto sem fazer nada, alarmes... lá, é tudo natural, por isso eu oiço tudo, tudo o que oiço pode ser qualquer coisa, por isso lá parece-me ouvir o outro mundo, mas mais que tudo, além dos medos sensoriais, lá eu oiço-me e oiço tudo o que sou, não há nada que me permita escapar da realidade, do que me rodeia, do honesto, do natural, da vida e acho que isso me assusta, quando passei quase toda a minha vida a viver numa prisão da qual tenho chave, mas rodeada de constantes ataques.
Lá, não sou mais do que sou, mas sou eu mesma.
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