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Eu quero saber, eu preocupo-me, eu choro quando tu choras e, cada vez que te magoas, eu sinto a tua dor. Mas eu sou fria, não é? Eu pareço arrogante, distante, apática perante a vida, mas eu sinto-a, eu sinto-me, eu sinto-te. Então a vida é injusta? Faço a minha justiça, quero fazer justiças em vidas que não são minhas, em vidas com que me preocupo. Não penso na morte, agora penso porque referi, mas apenas de sábado a domingo, eu penso nela, eu não penso muito, quando penso, tenho medo que ela chegue e leve consigo as vidas daqueles que me fazem chorar com as suas lágrimas, eu choro por pensar, e os sonhos deles? e os planos? e as palavras que não disse? e as palavras que não me disseram? devia ter dito, devia ter mostrado, devia ter-me preocupado mais e ter estado mais presente na minha vida, para estar na deles.
Eu acho que desenvolvi a capacidade de sentir o que sentem os outros, mesmo aqueles que não me preocupam, aqueles que não me são identificados, aqueles que apenas vejo, aqueles com que não falo. Eu queria poder dizer-lhes, não chorem, porque eu choro, porque me magoa também, mas seria egoísta, e eu desenvolvi uma empatia que me trouxe a ilusão de que talvez, quando eu me retorço com a dor deles e derramo lágrimas minhas, eu alivio as suas mágoas, talvez eu lhes dês esperança, talvez eu seja quem acompanha no caminho da vida até à morte e vice versa, talvez eu não esteja destinada a ser alguém na vida, ou ser eu na morte, talvez seja a transição, por isso nunca fui má a isto ou excelente àquilo, até aqui, fui intermédia e, agora consegui perceber, mesmo que sem certezas, talvez eu seja um meio e talvez a minha vida esteja feita para ser distribuída pela linha que separa o acordar do descanso eterno, talvez eu seja apenas um caminho, que está aqui para encaminhar os que se perdem e não ouviram o universo chamar. Há tantos que vivem sem querer por não saber que o destino lhes escreveu vida e tantos que perderam entes para a morte e outros tantos que temeram toda a vida morrer; a dor, o custo, os pecados, o inferno. Talvez eu seja apenas quem lhes informa que não há mal na vida, nem mal na morte, tudo é tranquilo, tudo poder ser e, o peso que os prende, é passageiro, a vida transita, e eu sou o caminho, e a morte não é o fim da estrada, seremos resumidos a nada, mas da terra nasceremos outros, continuamos seres, continuamos vivos, iremos morrer, voltar, aprender, até estarmos serenos por sabermos disto, e aí, eu serei o teu último abraço, já sem lágrimas, já sem vida, apenas e só, tu.

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