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Quando se fecharam as casas, ajustei a rotina. Quando caíram as redes, fiquei com as linhas. Quando caíram as linhas, desliguei-me. Enquanto perdia a luz, fechava os olhos, fechava a vida. Enquanto se abatia o peso, fingia não sentir. Quando mais desmoronava, menos dizia.  Enquanto procurava os sonhos, parecia possível. Quando pisei o mundo lá fora, era em demasia. Quando tentava, perdia. Quando tentava, em asfixia. Quando o mundo parou, eu fiquei activa. Mas quando voltou a girar, já tinha perdido o caminho. Perdi-me.

Embora

E se for agora que desapareço? Agora que desvaneço, que vou daqui para fora. E se for agora que o tempo se esgota? Como eu. E se for agora, que parto sem volta? Que me calo de vez. Que me faço de morta. E se for agora? Que o tempo congela, e as paredes se elevam. Vou-me embora, não me faz bem estar onde estou. Vou-me embora, não tenho ar para respirar, e ser quem sou. Vou-me embora, como me sugam a alma, me roubam o tempo. Vou-me embora, como sei que não existo, mesmo quando insisto em fazer-me ver. Desapareço. E, se for? Nada resta. Como nada resta de mim agora. Deixo os demónios, e vou sem nada, começo no vazio, mas começo eu. Que seja o quanto antes. Agora. E que tudo desapareça.

Deixo

 Deixo cair as cortinas, o pano, o véu, as armas. Vou lá fora, e destruo o muro, parto a fechadura, atiro as chaves. Arranco as fachadas, arranco portadas, arranco os cartazes. Deixo-me cair, deixo-me afogar, vou até ao fundo, e medito. Piso o chão com a revolta de todos os anos, e vou de volta à tona. Respiro. Quer a vida de mim tanto eu quero dela, mas constantemente nos desencontramos. Desde o início que o meu caminho foi desviado, e estou desde sempre a tentar encontrar o farol que me levará a casa, a chegar até mim. Vivi poucas vezes a sensação de ser feliz. É a droga da vida, a que lhe dá fôlego, sentido, a que incentiva a pisar o mundo com confiança. Acordar com vontade de sair, falar com vontade de ouvir, viver com vontade de sentir. Deixo-me cair, derrubada por todos estes meses. Admito que perdi, deixei que me derrubassem e roubassem tudo, e perdi-me. Agora repouso, tento acalmar a tempestade que me enrola cá dentro. Até amanhã. Até um dia. Até ao dia em que chegar a casa...
Absurdo perceber que todos querem o que posso dar, e não quem sou. Mas o que posso dar, já acabou. Já só me resta quem sou. E se deixo de dar, não me resta ninguém. Não sou por partes, sou por inteiro. Vazaram-me a alma, mas do vazio posso fazer inteiro. Consumiram tudo o que tinha, todo o meu bem, os meus sorrisos, o meu tempo, a minha essência. Mas tenho palavras, e tenho-me aqui. Gostava de poder desabar, mas não posso. Desiquilibro-me, caio, e nada me resta senão continuar, mesmo ferida, cansada, perdida. Continuo, pelo propósito que tenho a cumprir com a vida. Se desabo, caio para o fundo de mim mesma, dou tudo por perdido. Não sei o que me carrega dia após dia. Que faço senão carregar as mágoas, as frustrações e o que querem de mim?  Foda-se. Foda-se o mundo que nada quer comigo, mas tudo quer de mim. Fodam-se as reticências e as consequências. Foda-se as superfícies, fodam-se à superfície, que não me faz sentido se não for por inteiro. Que se foda o que parece, eu viro-me do...

Nunca foi falta de alma

Estes dias passam demasiado rápido, e enquanto tento acompanhar o ritmo, não vivo em cada momento. Quando estou pronta a abraçar, foge-me o tempo, fogem-me as horas, os pensamentos, as memórias. Parece que agora que estou a fazer de tudo para começar de novo, a vida limpou automaticamente tudo o que não fará parte dessa realidade. Mas que me desse um tempo, só para recuperar o fôlego no meio desta tempestade. É como caminhar por dentro de um tornado, como mergulhar debaixo da onda, ir para lá da rebentação. Estou uma concha de mim, deixei de conseguir sequer suster qualquer estabilidade mental. Estou perdida entre quem sou e quem estou a investir para ser. Será fácil partilhar depois quando lá chegar, e irá compensar todos estes dias, mas agora, está uma loucura, não sei o que me segura para não tombar. Há semanas em que dormir não me descansa, correr não me cansa, fazer yoga não me acalma, a música não me embala. Não tenho nada que me acalme, nem refúgio onde poisar por momentos. Há ...
 Há um brilho que se perdeu, um brilho que perdi. Há uma liberdade sobre mim mesma que desaprendi. Vi o que julgava não ser possível para mim, florescer, quando me dediquei ao meu bem estar, que leva a tudo o resto. Vi também, semanas desdobrarem-se em meses, meses a revirar tudo o que tinha como um caminho, finalmente, estável. Há um brilho que não vejo agora, que esperava ser tão simples como apenas mudar a lâmpada, mas sei que se a corrente não flui, não chega aqui. Há um lugar onde quero estar, fisicamente, e um estado que quero reconquistar, interiormente.  Então por isso, ainda não me faz sentido responder a perguntas do género "Onde te vês daqui a 5 anos?". Antes de qualquer plano a longo prazo, quero estar minimamente bem, para estar de braços apertos para a vida, e conseguir abraçar com a intensidade que cada momento merece, e cada pessoa que fará parte paralela deste caminho. Há um dia que amanheceu, mas não amanheceu em mim, espero que esse dia chegue em breve, e s...

Um dia nasce

 Nasce um dia novo, nem os raios de sol deslumbram a sombra que páira. Numa casa sem casos, em caos. Num ano que começou com as minhas melhores conquistas guarda simultaneamente o derrubar das mesmas. O próximo, será voltar a reerguer essas peças que tinha conseguido montar numa harmonia que nunca pensei existir, que agora deixei de conseguir acreditar estar reservada para mim. Mas todos os dias, uns mais que outros, é para lá que caminho, é por esse destino que enfrento estes dias. Mesmo nos dias em que a esperança não acorda, nas semanas em que falham sorrisos, em que falta o ar puro. Era bom ter a meu lado aqueles que me fazem sorrir o mais simples e banal, conviver. Nas palavras há um refúgio, impossível de moldar por restrições ou normas ou politicamente correto. Irei relê-las um dia e conhecer de mim um passado que pensava não conseguir ultrapassar. Talvez escreva como prova, talvez para fossilizar um presente que deve passar de vez a história. Nunca quis tanto virar uma pági...