Está tudo bem?
Mesmo os que me conhecem, não me conhecem o todo. Muitos dos
que me conheciam não me achavam capaz de estar onde estou a escrever isto. Gosto e
ressinto esse meu lado imprevisível, que até a mim me surpreende. Eu e os
outros temos um problema de comunicação, eu e eu mesma também. Sou uma
contradição ambulante, sou capaz de amar alguém para além de realidades e mágoas,
mas praticamente incapaz de sentir amor por alguém construído na realidade. Não
é que eu não sinta, acho que isto resultou de sentir demais. E das bocas de
serpente, das bocas de desprezo, das bocas de desconfiança por parte de muitos
que me rodearam por anos. Daí resultou este molde de mim, que se restringe de
partilhar o que penso, o que gosto, de quem gosto, o que me estilhaça a alma, o
que me deslumbra na vida… então escrevo e, apesar de tudo, escrevo daqui. Com
os meses que passaram, sinto como se não estivesse longe sequer porque esta foi
a primeira vida que construí uma vida sozinha durante quase um ano. Está mais que
evidente que a distância não cura problemas internos, foca-os mais ainda. A
responsabilidade trata de dar um enxerto de porrada que me desafiou a concluir
que queria mesmo isto. Isto como quem diz, inseguranças postas à prova como se
tivesse a pele do avesso, conhecer montes de gente vindos de lugares distintos,
ansiedade, desilusões, dúvidas, confusões, mágoas, saudades que se iam
disfarçando no meio do caos, tudo demasiado rápido, fugaz, tanto a fazer,
lugares para ir, tenho de reeducar como me falo, tenho de, tenho de… ir? E
tremores de sentimentos indefinidos, mas impossíveis de ignorar, mais
desilusões. E sorrisos tímidos, sorrisos forçados, sorrisos embebidos, sorrisos
tristes, sorrisos deslumbrados, risos incontroláveis, risos demasiado altos.
Razões; para serem como são, porque é que são…. Conhecer pessoas incríveis, ver
outras desperdiçá-lo. Remoer em rancores demasiado antigos, no rancor que não
me fala, o rancor do qual não falo. A razão porque me preocupa o que os outros pensam,
é porque não sei o que pensar de mim. Se me deixo pensar, entro em modo
auto destrutivo de forma inata. Genuinamente quero ser feliz. Lamento-me muito
em tudo o que escrevo, porque habita em mim, num canto muito recatado, uma
ânsia gigante de viver, porém também aqui residem demónios tão maduros quanto
eu. Chorei de sufoco no peito até aqui. Um sufoco ao vazio do meu corpo. Uma
tentativa de espremer os nervos corroídos. Mas dói e não me larga.
Mas porque não fazes assim? Tenta, tenta, tenta. Foda-se.
De que vale depenar a minha alma perante alguém que não me
tentará entender? Alguma vez me vais querer conhecer?
Se sou aluada é porque a minha alma hibernou há 3 anos,
deixei este veículo em modo automático e até hoje não estalou em mim algo
suficientemente forte para a acordar. A vida passa-me à frente, de lado, de
costas, e eu atravesso-a que nem um fantasma. Um fantasma com um pé na vida,
sob a terra, dois pés saídos da cova que não aprenderam ainda como caminhar
neste mundo.
Sim, está tudo e contigo?
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