Ilusões não bastam
Entrego-me a quem não me vê como alguém, apenas algo, com um fim. Uma mera passagem para algo que lhes irá favorecer de alguma forma. Quem sou eu para eles? Apenas a utilidade que me dão. Eu sou também culpada, por já várias vezes me ter deixado ser roubada, eu dou parte de mim, talvez na esperança de regressar mais completa, na ingénua e cruel esperança de que poderão ver-me como alguém, para lá do uso que me dão, mas eu estou errada sempre que deposito fé e, quando o escolho não fazer, erro. Se eu me amasse mais, se eu me amasse, se eu me tratasse como trato quem eu abraço na vida, eu teria o controlo para não ceder por insegurança e por um complexo de inferioridade. E eu vivo torturada por saber o mal que faço, por saber que é errado, se eu fosse ignorante, eu errava e continuava com uma mente livre, mas os erros assombram-me porque eu sei que os são e porque são e que já um dia os cometi.
Ainda me tento apoiar no ideal que seria ter alguém que me amasse para provar que tenho valor, mas eu sei, eu sei, que sou eu que vejo o valor em mim e me considero válida e suficiente e bastante, ninguém o poderá fazer por mim, ninguém tem de me salvar, eu estou aqui, eu vivo e tenho esse poder.
Mas caio tantas vezes no erro de buscar a falta de segurança na aprovação de outros e como resultado, eu sinto-me pior e cada vez menos vista como um ser para várias pessoas, sinto-me cada vez menos pessoa. Então na falta de eu me valorizar, na falta de alguém me dar valor, eu cedo ao mínimo acto semelhante ao que sinto e torno-o em algo mais e prolongo-o com ilusões. E então deparo-me com algo um pouco diferente, semelhante, mas não sou eu a forçar, não sou eu a iludir-me sem bases, alguém propõe, alguém fala de vontades, alguém me vê e eu acredito, evito criar expetativas, apenas espero o que me foi dito e, mesmo sem me iludir, sou desiludida e agora tento equilibrar-me num fio tão ténue, tão elevado, que a queda cai na realidade.
E como solução para tudo isto, bastava eu reconhecer-me, não iria ceder a quem não me respeita, se cedesse por engano, iria continuar confiante, bastava eu sentir-me bastante.
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