Ao lado do quase
Porque tenho de ser eu quase sempre a perguntar, para conversar com aqueles que valorizo? E porque sou sempre eu a questioná-los e nunca se parecem interessar por ouvir as minhas respostas? Quando falo, parece que incomodo, vejo-os fixar os olhos, acenar e não dizer mais para além de uma afirmação desinteressada. Estamos lado a lado, mas apenas porque decidi lá estar, se noutro plano fosse e eu não alcançasse a pessoa, eu não estaria com ela, não seria procurada ou uma falta notada. Não me queria lamuriar, mas é algo com que ainda não me consigo conformar, porque ainda me sinto ficar de parte, tantas vezes ignorada e acredito que não uma pessoa tão nula e vazia que mereça ser apenas a pessoa do lado. Não anseio o maior destaque, não é isso que ambiciono, apenas queria que com quem eu quero estar, quisesse estar comigo, com quem eu quero falar, tivesse a mesma vontade que eu. Eu durante muito tempo deixei-me moldar para ser simplesmente ouvinte dos outros e não alguém que merecesse um lugar na vida de alguém, era criança e não percebia sobre a vida, apenas me sentia rejeitada pela minha própria família, não amada, não querida, mas agora aprendi a não deixar que isso me molde, a certo ponto fez parte de mim e ainda faz, mas não vou mais justificar a minha tristeza e dor com o que me aconteceu ou com o que não aconteceu ou com as ações que me magoaram, ou pelo menos, assim não o quero. Parecendo narcisista, eu diria que, muitas vezes pondero se sou um anjo que se perdeu e calhou neste mundo, por mais que tenha melhorado o que sou e como vivo, ainda me assombra a crença de que talvez eu não tenha sido destinada a viver, apenas a ser alguém que olha pelos outros, que se preocupa com os outros, mas eu não sou bondosa ao estado de ceder muitas vezes à compaixão que sinto quando vejo alguém que precisa, acho que assim é porque sou demasiado consciente nas ações que tomo, mesmo que seja para ajudar alguém, receio que algo de mau aconteça, logo, acho que sou egoísta ou talvez uma pessoa que se deixou amargar ao ponto de subconscientemente não ajudar quem precisa (e não pede) por já tantos momentos ter precisado e não ter sido socorrida, deixando-me afogar no que sentia, no que pensava e, agora relembro e nem sei como não enlouqueci ao ponto de agir drasticamente, mas preocupo-me com os outros, como se sentem, porque assim se sentem, aconselho-os baseado na experiência de ouvir diversas histórias de outros e parecem achar que são bons conselhos, mas serão? Não sei se são ou não. Claro que não me importo de ouvir, ajudar, aconselhar, ser necessitada por um motivo, mas quando apenas estou lá para isso, o que faz de mim? Um mero tapete de um quarto de hóspedes que só é pisado quando se anda descalço num chão frio.
E então contraria-se também a minha crença de não estar destinada a viver com as vezes que corri risco de vida ou quase risco e algo ou alguém intersectou a possibilidade de isso acontecer, anulando o risco e restando apenas uma suposição. E se eu estivesse deitada noutra parte da cama? E se tivesse ido no banco de trás do carro em que a traseira foi totalmente esmagada? E se o condutor não fosse paciente? E se eu não tivesse tossido? E se não tivesse tossido? E se não reparassem que o gás estava aberto?
E se eu nasci por engano, mas algo me salva cada vez que quase desapareço, que sentido tem tudo isto?
Não sou um anjo, não sou um morto, não sou um vivo, não é suposto voltar ao céu ou ser condenada, e se eu não sou suposto ser nada?
E então contraria-se também a minha crença de não estar destinada a viver com as vezes que corri risco de vida ou quase risco e algo ou alguém intersectou a possibilidade de isso acontecer, anulando o risco e restando apenas uma suposição. E se eu estivesse deitada noutra parte da cama? E se tivesse ido no banco de trás do carro em que a traseira foi totalmente esmagada? E se o condutor não fosse paciente? E se eu não tivesse tossido? E se não tivesse tossido? E se não reparassem que o gás estava aberto?
E se eu nasci por engano, mas algo me salva cada vez que quase desapareço, que sentido tem tudo isto?
Não sou um anjo, não sou um morto, não sou um vivo, não é suposto voltar ao céu ou ser condenada, e se eu não sou suposto ser nada?
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