E ao terceiro mês, uma confissão

Há dias em que me esqueço de tomar os medicamentos de propósito.
Numa espécie de auto-desafio, para ver se sinto algo para além de um estado neutro.
Apesar de os tomar, tenho sentido a ansiedade a arranhar a minha porta para entrar e apoderar-se de mim. Já contaminou algumas das minhas rotinas.

Antes de ficar fechada em casa, tinha finalmente encontrado um caminho iluminado e uma ânsia de o percorrer... hoje eu não sinto nada. Afoguei-me na rotina, e só três meses depois é que percebi que estou a fazer yoga no fundo do mar, e não estou a respirar de todo. Estou a viver dia a dia a arfar, por uma quebra na rotina, por algo que rompa este cinzento, e me vire do avesso, seja dor, raiva, ou extâse. Qualquer coisa que se manifeste e me faça sentir que ainda há em mim uma fragilidade de sentir a vida.

Mas como se pode viver de novo, se dizem que não devemos tocar em nada fora de casa, nem sair da zona do conforto nem estar com alguém a não ser que se mascare?

Irónico, como depois de meses a lutar para tirar a máscara e para viver de pulsos virados para o céu e de braços abertos, vem um vírus que enjaula todos em casa. E então eu assumi a pausa como uma responsabilidade a cumprir. Que cumpri e ainda hoje cumpro. Mas e a responsabilide para comigo, a minha felicidade, o meu compromisso de fazer de tudo para ser feliz?
Essa pausa deixou de ser apenas dois traços verticais. passou a ser o padrão das grades. Em que apenas estou onde já estava, falo com quem já falava, e vivo o que já tinha vivido e ultrapassado.

Como é que conquisto de novo a vida? Como é que me conquisto de novo a mim? Como é que volto a sentir o ardor de viver sem depender químicos que me fazem sorrir? Para mim um suficiente não é o bastante. Eu quero rir até chorar, quero sentir mesmo se romper a trovoada, quero abraçar a felicidade, quero sentir os volts de eletricidade.

Há dias, em que não tomo os para ver se volto a ser uma tragédia. Porque pelo menos assim, já saberia como  o ser.


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