Quinze diferenças

A certa altura, lá no início, quis livrar-me dele. Que não me falasse mais, que não me olhasse, que não me tentasse. Ainda fui atravessada por outra opção e quis respeitá-la, sem que merecesse tanta preocupação minha. Até que descartei a opção, ignorei o medo, silenciei o que diria de mal a sociedade e deixei que me alcançasse, deixei que me sentisse, entrou na minha zona de conforto e ouviu de mim verdades e teve de mim a intimidade emocional que quase ninguém tem. E depois... nunca mais voltou. Dizem que não posso pensar que sou eu, mas sou eu que estou sozinha desde sempre. Vejo formarem-se conexões, aconselhei dezenas de pessoas, mas a minha rede não parece ser compatível com outra. Os poucos que aqui calharam, foram embora. Então como não pensar que sou eu? Como é que posso acreditar que vale a pena esperar por alguém que não me faça duvidar, que me queira com todo o meu bem e com os meus defeitos?
Depois de muito tempo vi-o outra vez, e como sempre deixou-me nervosa. Por mais motivos agora; porque sabe de mim mais do que merecia, porque queria que me quisesse tal como sou. Não nego, é claro que me cravou fundo ver alguém ir embora sem voltar depois de tirar a minha máscara.
Eu não percebo nada deste mundo. Só quero ser feliz e partilhar a minha vida com alguém, sem medo que me vejam ao pormenor. Porque quem ama fica, não é? Quem deveria amar-te, lutará para ficar. 
Não é assim tão difícil despedir-me dos outros quando sei que eles têm de seguir a vida, mas quando eles se vão embora por sermos como somos, dói.
Já não sei se diga que a vida é cruel, nós é que somos, vocês é que são.
Eu posso virar a cara, fingir que ignoro, mas corrói-me por dentro. Sei que pareço imune a tudo, mas tortura-me enquanto me tapa a boca para não gritar, seca-me quando preciso de despejar e chorar, mas faz questão que eu veja e oiça. 
E magoa, magoa, magoa...


Depois de alguns meses, em Abril.

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